Bem-estar gera produtividade

Desenvolver habilidades socioemocionais ajuda os estudantes a florescer em suas vidas profissionais e pessoais, aponta Alejandro Adler, da Universidade da Pensilvânia

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Alejandro Adler, da Universidade da Pensilvânia: visita ao Brasil para apresentar a instituições educacionais o conceito da educação positiva

por Mariana Queen Nwabasili

No começo de janeiro, a comunidade acadêmica da Universidade Yale se deparou com um raro fenômeno. Em um intervalo de menos de dez dias, o curso Psychology and the Good Life, criado pelo departamento de Psicologia, recebeu milhares de inscrições, algo visto pela última vez em 1992, quando um programa bateu a marca de 1.050 matriculados. Esse recorde foi ultrapassado. Atualmente, 1.182 estudantes estão frequentando as aulas do programa que ensina conceitos da psicologia positiva e como os alunos podem mudar seus comportamentos e aplicar as lições aprendidas em suas vidas.

Assim como os alunos de Yale, há muitos outros estudantes e professores interessados no tema da psicologia positiva e em uma ramificação sua, a educação positiva, cujo objetivo é possibilitar o desenvolvimento pessoal, profissional e de projetos de vida dos alunos.

Alejandro Adler, diretor de Educação Internacional do Centro de Psicologia Positiva da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, é um dos principais especialistas sobre o tema no mundo. Graduado em psicologia e economia pela instituição em que trabalha, também atua como conselheiro do Banco Mundial e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e é um dos 60 membros do International Well-being Expert Group da Organização das Nações Unidas (ONU).

Tendo realizado estudos e trabalhos em países como Butão, Índia, México, Nepal, Peru e Reino Unido, Adler garante que a implantação da educação positiva em instituições de ensino superior resulta em maior produtividade e inovação entre docentes e na diminuição do bullying, do consumo de drogas e de álcool entre alunos. Além disso, conta ter percebido, após atuação na Universidade TecMilenio, no México, que a metodologia melhora o desempenho acadêmico dos estudantes e aumenta a taxa de empregabilidade. “Mais do que querer encontrar alguém que saiba fazer provas, os empregadores buscam pessoas que tenham habilidades sociais, mentais, socioemocionais”, diz.

O que é educação positiva?
Ela é uma resposta à educação tradicional, que em todo mundo, inclusive na maioria do Brasil, promove conhecimento para os alunos passarem em provas padronizadas, como o Enem e o Pisa [Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, realizado pela OCDE]. Claro que os conteúdos cobrados nessas provas são importantes, mas a vida requer muitas outras competências. A educação positiva propõe complementar a educação tradicional com o desenvolvimento de habilidades e competências de que estudantes, e eventualmente os adultos, necessitam para florescer em suas vidas profissionais e pessoais e para alcançar seus projetos de vida. A educação positiva é a resposta à pergunta “como aprimoramos e cultivamos o bem-estar?”. Infelizmente, o bem-estar não é algo inato, não é algo físico, mas é algo que pode crescer por meio do aprimoramento de competências que podem também ser chamadas de socioemocionais ou de habilidades para a vida ou habilidades para o bem-estar.

Como a educação positiva se relaciona com a chamada psicologia positiva?
Da mesma forma, a psicologia positiva é uma resposta à psicologia tradicional, que, em mais de 100 anos, se dedicou a identificar os problemas psicológicos das pessoas e em como eliminá-los; problemas como depressão, ansiedade, esquizofrenia, bipolaridade e demais psicopatologias. O lado positivo da experiência humana, contudo, não foi estudado. É preciso estudar o que é o bem-estar, como o vemos e como o aprimoramos. A psicologia positiva tenta entender o que realmente faz com que a vida valha a pena ser vivida; entender elementos como o sentido e o propósito da vida, relações saudáveis, envolvimentos interpessoais, alcances de metas, emoções positivas, vitalidade.

Há um período ou idade ideais para aprender habilidades socioemocionais?
Temos trabalhado com crianças e também em universidades, com adultos, e a nossa percepção é de que o ensino de habilidades socioemocionais funciona independentemente de a pessoa ser criança, adolescente ou adulta, e independentemente de sua cultura e nível socioeconômico. Inicialmente, comecei a trabalhar com adolescentes no que chamamos de educação secundária, porque a adolescência é um período de desenvolvimento psicológico e social em que se criam hábitos mentais, emocionais. Essa é uma etapa do desenvolvimento dos humanos em que essas habilidades e competências podem se converter em hábitos de vida. Mas a partir dos quatro anos de idade já é possível reconhecer e aprender essas habilidades junto com o ensino tradicional. Quanto mais cedo começar esse aprendizado, melhor. Primeiro, porque quanto mais novas nossas mentes são, mais flexíveis somos. Segundo, porque quanto mais novos apreendemos habilidades para o bem-estar, mais poderemos aproveitar esse bem-estar durante a vida, e mais tempo temos para aproveitar tudo o que vem junto com isso: produtividade, melhor desempenho acadêmico e profissional.

Pensando especificamente no ensino superior, por que a educação positiva deve ser pensada para essa etapa dos estudos?
Existem líderes de instituições de ensino superior e de políticas públicas para esse setor que valorizam o bem-estar como um fim da educação. Mas a maioria das pessoas nos ministérios de Educação e sistemas universitários, principalmente os relacionados a instituições públicas, seguem usando medições tradicionais de desempenho acadêmico e de produtividade. Na maioria dos sistemas educativos, especialmente nas universidades, os docentes sofrem muita pressão para trabalhar com exames padronizados, com currículos estabelecidos externamente.

Como é possível preparar os docentes para ensinar e ter bem-estar na prática?
É preciso capacitar todos. Fiz estudos em universidades do Reino Unido e do México. Um exemplo concreto de maior êxito foi o trabalho na Universidade TecMilenio, no México, com 30 campi e cerca de 60 mil estudantes. Lá, fui responsável por incorporar a educação positiva em todo o sistema universitário. Todos os professores foram capacitados em educação positiva e os estudantes passaram a ter ao menos uma disciplina introdutória de “Psicologia positiva, educação e habilidades para a vida”. Isso realmente criou um sistema de bem-estar nas unidades. Os professores que iam ensinar especificamente a disciplina “Psicologia positiva, educação e habilidade para a vida” fizeram uma capacitação teórica e também uma vivência. Todos os professores, independentemente da disciplina que lecionam, precisam aprender não somente quais são as competências e habilidades socioemocionais, mas também devem aprender a vivê-las. Quando há programas que realmente buscam melhorar a qualidade de vida e bem-estar dos docentes, é muito fácil que eles apoiem. Eles fazem isso quando entendem que essa não é uma formação só para serem melhores, mas sim para que tenham mais bem-estar.

Como garantir benefícios à instituição e aos alunos com esses tipos de ação?
Muitas vezes é preciso demonstrar como o bem-estar causa impactos positivos na vida dos estudantes e de docentes; impactos econômicos, acadêmicos e de comportamento. A boa notícia é que temos conseguido criar um vínculo científico entre incrementos de bem-estar e maior produtividade de trabalho, mais inovação, mais criatividade, além de redução de violências físicas e psicológicas entre estudantes, diminuição do bullying, do consumo de drogas e do álcool. Na experiência no México, percebemos melhoras no desempenho acadêmico dos estudantes durante as graduações, e, o mais importante, houve uma melhoria na taxa de empregabilidade. Por quê? Porque mais do que querer encontrar alguém que saiba fazer provas, os empregadores buscam pessoas que tenham essas habilidades sociais, mentais, socioemocionais.O bem-estar pode levar ao aumento da produtividade, mas a produtividade pode levar ao fim do bem-estar. Há um paradoxo aí?
A questão é que precisamos promover o bem-estar com a mesma seriedade com a qual promovemos o crescimento econômico como política pública, ou com a qual promovemos o desempenho acadêmico relacionado à educação nacional. Isso não é partidário ou alguma tendência política, é realmente uma mudança de paradigma; mudar a forma como olhamos para as coisas que consideramos exitosas no curto prazo, como dinheiro e materialismo. É preciso mudar a forma como entendemos esse fim, mudar o objetivo da política pública para que não faça o ser humano trabalhar exclusivamente a serviço da economia, mas também faça a economia trabalhar a serviço do ser humano; que não faça o estudante estar a serviço de um sistema educativo que mata sua paixão pela aprendizagem, mas sim faça com que a escola esteja a serviço do estudante para despertar o seu amor pela aprendizagem.

A vulnerabilidade social interfere no desenvolvimento das habilidades socioemocionais?
Trabalhamos em países com muitos recursos, como a Finlândia, e em países pobres, como Nepal e Índia. Observamos que uma das principais competências que a educação positiva oferece é a maior resiliência para que, dentro de entornos vulneráveis, os sujeitos possam ser unos, pacientes e não deixar que as adversidades afetem estruturalmente as suas vidas.

Então essas habilidades podem ser usadas para superar a vulnerabilidade social?
Temos de lembrar que os professores, os estudantes e os diretores saem das instituições de ensino e voltam às suas comunidades todos os dias. Eles não vivem só na escola, são agentes de transformação do entorno. Então, as escolas desenvolvem catalisadores para mudar não só a cultura dentro dela, mas também fora. Mas é impossível pensar que os docentes devem ser responsáveis por resolver tudo. Quando for possível, é importante incorporar os pais dos estudantes no processo de formação para o ensino do bem-estar aos seus filhos no ambiente doméstico. A integração da comunidade é essencial, por meio de capacitação direta ou indireta: fazer uma sensibilização, apresentar os conceitos básicos da proposta que seus filhos estão aprendendo.

A educação positiva é responsabilidade só das instituições de ensino ou deve estar vinculada a políticas públicas que mantenham o bem-estar para além dos espaços de estudos?
Isso tem a ver com a mudança de paradigma que falei antes. O paradigma que temos agora, que é o de crescimento econômico a qualquer custo, não é sustentável. Nós precisamos de um paradigma que coloque o bem-estar do ser humano como pilar, como algo central, e que, consequentemente, garanta todas as condições para que o ser humano floresça, com suficiência econômica, saúde, educação, pertencimento comunitário, moradia, seguridade quanto à empregabilidade. Então, obviamente, a educação positiva, sozinha, não é suficiente para resolver todos os problemas sociais. A educação é o melhor modelo que conhecemos até agora, mas deve ser implementada com um bom sistema de saúde, com sistemas que garantam infraestrutura para se viver.

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