Aula aberta

Ao disponibilizar conteúdos próprios na rede, o professor torna públicas as suas práticas pedagógicas e ajuda a disseminar o ensino pelo Brasil

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Depois de finalizar uma aula sobre seres vivos, a professora de ciências Andréa Barreto, do Rio de Janeiro (RJ), resolve disponibilizar o conteúdo no blog que mantém sobre a disciplina. O estudo dirigido passa a ser compartilhado por seus seguidores, que podem usá-lo sem restrições. “Fico feliz em ver que a minha criação é útil para outros educadores, por isso decidi me arriscar nessa esfera”, comenta.

Ao desenvolver seu próprio material didático, o professor respeita as necessidades e o contexto de seus alunos. Quando ele publica essa produção, em especial se o faz com licenças livres e abertas, permite que outros colegas se apropriem dela e a adaptem às suas realidades. “Assim, o conhecimento circula a partir de saberes entre os pares”, afirma a jornalista Michelle Prazeres, especialista em educação pela Universidade de São Paulo (USP).

Se disponibilizados livremente, esses conteúdos (digitais ou não) são chamados de Recursos Educacionais Abertos (REA). É possível usá-los, adaptá-los e redistribuí-los de forma gratuita sem ou com pouquíssimas restrições. Cursos completos ou em módulos, livros didáticos, apresentações, vídeos e testes podem ser considerados REA, desde que apoiem o conhecimento e estejam livres para o uso – as licenças mais recomendadas são as Creative Commons.

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A produção desse tipo de material vem sendo feita a partir de diversas ferramentas disponíveis na internet, prática que tem crescido nos últimos anos devido à quantidade e ao alcance cada vez maior dos recursos digitais. De acordo com a pesquisa TIC Educação 2013, realizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) com cerca de 2 mil professores de escolas públicas, 96% dos entrevistados usam ferramentas on-line para preparar aulas ou atividades do dia a dia – entre as opções preferidas estão fotos, ilustrações, textos, vídeos e questões de prova. Destes, 88% declararam que fazem alterações nas publicações originais para moldá-las de acordo com as necessidades de seus estudantes.

Em contrapartida, apenas 21% dos educadores disseram que já disponibilizaram conteúdos próprios na rede. Por mais que na prática os usuários tenham se apropriado dos recursos digitais, tal cenário mostra que ainda há barreiras para a publicação livre das produções educacionais.

Isso se deve, segundo Michelle, à falta de uma cultura de compartilhamento do conhecimento aberto no país. Para se ter uma ideia, a Lei de Direitos Autorais (Lei 9.610/1998) é uma das mais restritivas do mundo e foi apontada como um dos principais obstáculos pelos entrevistados da pesquisa “Recursos Educacionais Abertos no Brasil: o campo, os recursos e sua apropriação em sala de aula”, realizada pela ONG Ação Educativa com o apoio da Wikimedia Foundation. O estudo tinha como objetivo identificar os principais atores do campo dos REA no país, bem como as oportunidades e as barreiras para o uso e a apropriação desses materiais em língua portuguesa. “Na legislação, não há exceções ao ambiente escolar, bibliotecas e tampouco à adaptação do conteúdo para deficientes”, afirma Jamila Venturini, coordenadora da pesquisa.

Produtores de conteúdo
Para a consultora Andreia Inamorato dos Santos, pesquisadora em educação aberta no Institute for Prospective Technological Studies (IPTS), com base na Espanha, a publicação dos conteúdos educacionais ainda não faz parte da cultura do professor – e isso não se deve apenas a ele, mas também ao meio em que vive. Muitas escolas brasileiras não têm ao menos computadores suficientes ou conexão adequada (banda larga) para permitir a produção educacional, questão impulsionada pela falta de investimentos no setor.

Outro fator determinante é o incentivo por parte das instituições (públicas ou privadas). A pesquisadora destaca a importância do letramento digital do educador, ou seja, a escola deve oferecer cursos, treinamentos e workshops sobre o tema. Tal conhecimento facilita o acesso às ferramentas, ao domínio das licenças de uso e aos recursos disponíveis atualmente. “Assim, ele pode explorar melhor esse universo e ter a certeza de que compartilhar é uma prática saudável”, explica Andreia. Segundo ela, se implementados, esses procedimentos marcam o início de uma mudança cultural no universo educacional – a partir de uma base sólida, professores e diretores passarão a enxergar as publicações compartilhadas como bons mecanismos de produção colaborativa do conhecimento.

“Esse movimento favorável pode ganhar ainda mais força se houver mais pesquisas sobre os reais impactos que a tecnologia traz ao conhecimento crítico. Universi­dades, institutos e órgãos públi­cos deveriam olhar mais para isso”, sugere Fernando Almeida, diretor de Orientações Técnicas da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo.

Também é importante que o uso de tablets e celulares não seja discriminado em sala, pois são ferramentas que podem con­tribuir efetivamente para a socialização dos conteúdos. “É fundamental que a comunidade escolar se aproprie dessa questão e possa incluí-la em seu dia a dia de uma forma mais natural e ativa”, acrescenta Jamila.

O passo seguinte é defender que a produção digital seja reconhecida pelas instituições de ensino. Andreia acredita que o desenvolvimento dos conteúdos deve acontecer dentro da carga horária de trabalho e que os docentes sejam remunerados por isso. “Eles levam tempo para pesquisar e produzir, o que automaticamente deveria garantir um retorno financeiro. As escolas têm de atentar para essa questão, bem como o poder público”, diz.

Possibilidades
O assunto não é tão complexo quanto parece ser – basta voltar um pouco no tempo para detectar a simplicidade dos compartilhamentos. Distribuir cópias de textos, artigos e apresentações aos alunos é uma prática antiga. Com a internet, porém, o que muda é o alcance, muito maior e capaz de enriquecer o processo educacional de uma forma mais ampla. “Antigamente era difícil compartilhar, o que, mesmo assim, não impedia as socializações. O professor precisa ter a consciência de que é um produtor e precisa fazer esse conteúdo circular”, ressalta Jamila.

A quantidade de plataformas, repositórios educacionais e ferramentas, segundo ela, também não é um empecilho para os compartilhamentos. Só no estudo guiado pela Ação Educativa foram analisados 22 portais (a maioria voltada à educação básica) e 231 recursos educacionais abertos. “O professor tem à disposição desde opções amplas, como o Wikimedia, que permite criar um livro coletivo, por exemplo, até as mais restritas, como a publicação de textos no Google Drive”, afirma.

Para Michelle, o ideal é que o docente conheça as potencialidades de cada plataforma ou ferramenta para, então, definir os usos a partir do seu objetivo pedagógico e do envolvimento dos estudantes nos projetos. “O importante é a contextualização e o fato de o educador ser autor em parceria com seus alunos”, comenta.

A partir disso, há uma infinidade de formatos e possibilidades. As produções não devem ficar restritas a textos e apresentações – os professores podem, por exemplo, fazer um vídeo das aulas ou então gravar material em áudio. Grupos de discussão e fóruns também aparecem como boas opções de socialização da educação, pois incentivam comentários e interações entre docentes e estudantes. “É importante entender esse movimento como uma nova linguagem de produção coletiva e de intercâmbio de conhecimentos”, comenta Jamila.

Adriana Rocha Bruno, professora da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e líder do Grupo de Pesquisa Aprendizagem em Rede (GRUPAR), recomenda a disponibilização dos materiais em locais públicos, como o YouTube ou Prezi, mas sugere também a concentração deles em sites ou blogs específicos. Assim, as informações podem ser encontradas com maior facilidade, principalmente se o educador fizer as marcações (palavras-chave) corretamente. Outro ponto importante é o formato do material disponibilizado. Para simplificar o download e as adaptações, Andreia sugere que a publicação seja feita em programas nos quais o conteúdo possa ser facilmente editado, como Word e Power Point. “Java e PDF dificultam a remixagem”, diz.

Canais para compartilhar

SlideShare (www.slideshare.net)– repositório de apresentações
Prezi (www.prezi.com)– ferramenta para a criação de apresentações
Dropbox (www.dropbox.com)– repositório em nuvem
Google Drive( www.drive.google.com) – disponibiliza diversas ferramentas que podem ser compartilhadas, como arquivos de texto e planilhas
Youblisher (www.youblisher.com) – ferramenta para a criação de livros e revistas online.
FazGame (www.fazgame.com.br)– plataforma para a criação de jogos digitais.
YouTube (www.youtube.com) – canal de compartilhamento de vídeos.

Onde publicar

Wikimedia (wikimedia.org.br) – plataforma para o desenvolvimento de atividades coletivas e compartilhamento de experiências.
Portal do Professor (www.portaldoprofessor.mec.gov.br) – iniciativa do Ministério da Educação (MEC), o portal disponibiliza sugestões de planos de aula, download de mídias
de apoio e notícias sobre o setor, além de possibilitar ocompartilhamento de aulas e atividades.
P2P (www.p2pu.org) – registrada na Califórnia, a organização sem fins lucrativos criou uma plataforma aberta (em inglês) para o desenvolvimento de aulas e conteúdos educacionais. Aceita materiais em português.
Connexions (www.cnx.org) – plataforma aberta para a publicação de REA. Está em inglês, mas aceita conteúdos em português.
Educopédia (www.educopedia.com.br) – iniciativa da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro para o compartilhamento de conteúdos educacionais
que sigam o currículo.

Qual o melhor uso para as redes sociais

As redes sociais aparecem como uma boa maneira de conectar as pessoas e promover debates, mas para Jamila Venturini, Ação Educativa, devem ser usadas com cautela. Quando se trata de tecnologia, o papel do professor é pensar na formação do jovem para o consumo crítico desses meios, que são comerciais e muitas vezes se apropriam dos dados de seus usuários. “Sugiro o uso desses canais apenas para a troca livre de informações e a conexão entre alunos e professores”.

Andreia dos Santos, do IPTS, também destaca a importância da formação de grupos nessas redes como forma de conectar as pessoas. Em contrapartida, teme pela restrição que o formato pode proporcionar. “A publicação em perfis pessoais ou grupos fechados pode limitar o debate. Sugiro que as interações sejam feitas também fora das redes”, diz.

Outra forma de usar canais como Facebook, Twitter e Instagram a favor da educação é compartilhar com os alunos materiais como documentos, artigos e conteúdos, além de divulgar palestras, aulas, oficinas e encontros. “Antes, lembre-se de verificar sempre se a fonte é segura. Também devemos analisar se o assunto é mesmo relevante para aquilo que nos propomos disseminar”, comenta Gi Camargo, sócia da Cinese, plataforma digital de aprendizado coletivo. Em todos os casos, Adriana reforça a importância de dar os créditos ao autor em imagens, textos, vídeos e citações, entre outros. Também é fundamental respeitar a pluralidade de ideias e ser cauteloso ao emitir as suas opiniões, para evitar mal-entendidos. “O que foi compartilhado pode ser acessado por muitas pessoas, e não temos controle sobre isso. Portanto, é preciso ter clareza e ética”, diz a professora.

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