As incômodas

Seis anos depois de se tornarem obrigatórias, filosofia e sociologia ainda têm de explicar a que vieram, e estão em constante questionamento por parte dos críticos de um currículo inchado. Professores relatam boas experiências, entretanto

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Marcos Duarte: sociologia do terror é sucesso entre os alunos

Há sempre motivos para novos debates sobre o que fazer para superar os desafios do ensino médio no Brasil e foi em meio a este cenário nada permanente que a sociologia e a filosofia passaram a fazer parte do currículo obrigatório da etapa. Há três anos, as duas disciplinas foram incluídas de forma integral nos currículos de todas as escolas do país, conforme previu a Resolução 01/2009 da Câmara da Educação Básica do Conselho Nacional de Educação (CNE). Ou seja, a partir deste ano, todos os formandos do ensino médio no Brasil terão cursado ao menos três anos das duas disciplinas.

Vencida a resistência inicial, a sociologia e a filosofia hoje fazem parte deste ensino médio, sempre ameaçado por novas mudanças. Mas se, como diz o ditado, é no andar da carroça que as melancias se ajeitam, é também verdade que as frutas colocadas no topo da pilha são as primeiras a balançar e ameaçar cair por terra. Passados seis anos desde a publicação da Resolução 01/2009, grupos de sociólogos e filósofos ligados à educação e à formação de professores seguem tendo de brigar contra os mesmos questionamentos apresentados quando da discussão da inclusão das disciplinas no EM.

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Bem-me-quer, malmequer

Pesquisa divulgada em junho de 2013 pela Fundação Victor Civita e o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), por exemplo, colocou na berlinda o interesse do público-alvo do ensino médio pelas matérias. O estudo foi realizado com jovens entre 15 e 19 anos de idade das áreas mais pobres das regiões metropolitanas de São Paulo e Recife com o objetivo de registrar a percepção da população atendida – ou que deveria ser atendida – no ensino médio. Quando questionados sobre se gostavam da disciplina, 46,6% dos jovens disseram gostar de filosofia e 43,3%, de sociologia. Ou seja, quase a metade dos adolescentes gosta de lidar com questões filosóficas ou sociológicas. Quando perguntados se as disciplinas tinham “utilidade”, os números caem pela metade. Apenas 24,9% acreditam que a filosofia é uma disciplina útil e só 23,7% dizem o mesmo da sociologia. Os índices são semelhantes aos da química e da física.

O estudo não advoga uma ou outra disciplina, mas faz uma espécie de alerta sobre aquelas tidas como menos interessantes – filosofia e sociologia incluídas: “os professores precisam ser incentivados a mostrar o sentido dos conteúdos ensinados em suas aulas, isto é, explicar por que tal matéria deva ser ensinada e trazer para a experiência mais concreta do jovem pobre o significado de um determinado aprendizado”, recomenda.

Na contramão da pesquisa, os professores ouvidos por Educação falam de boas experiências com os alunos. Marcos Duarte, professor de sociologia na Escola Estadual Padre Reus, em Porto Alegre (RS), afirma que é constantemente interrogado por não ter mais de um período por semana. “Realizamos algumas atividades no turno da noite, como o ‘Sociologia do Terror’, um cine-debate, realizando uma análise sociológica de um filme de terror. Tivemos de fazer duas sessões por conta do número de inscritos e nas duas estávamos com o anfiteatro lotado”, conta. “Meus alunos são da manhã e da tarde. Mesmo assim optaram por ficar até as 21h30 na escola para aprender sociologia.”

Eduardo Amaral foi professor de filosofia da rede pública de São Paulo e diz que, nas conversas com ex-alunos, é fácil perceber os resultados do contato com autores, conceitos e textos filosóficos. “Eles demonstram a assimilação não apenas do conteúdo da disciplina, os conceitos, mas também dos recursos de que lançamos mão: desde a análise etimológica, sempre presente nas aulas, como o do raciocínio lógico, o mais elementar, sob a forma do silogismo”, diz Amaral. “E o mais importante, passam a usar os conceitos que aprenderam nas aulas de filosofia em outras disciplinas, ou ao menos passam a reconhecer tais conceitos na fala dos outros professores.”

Conhecimento integral

“Não há por que duvidar que os jovens não tenham interesse em conhecer o mundo social que os rodeia”, diz Daniel Mocelin, professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e coordenador do curso de especialização “O ensino da sociologia para professores do ensino médio”, no Centro de Formação Continuada de Professores (ForProf) da UFRGS. “Sociologizar é ‘desnaturalizar’ as relações sociais, as estruturas sociais e os processos sociais, para se ter certeza de que tratamos de fenômenos históricos localizados e, por isso, sabermos que podemos mudá-los.”

Para Adriana Mattar Maamari, professora do curso de Licenciatura em Filosofia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e coordenadora do Laboratório de Ensino de Filosofia (Lenfi), a presença da filosofia no currículo faz com que o conteúdo fragmentado em diversas disciplinas seja conectado. “Uma pessoa com uma formação filosófica tem uma capacidade diferenciada de compreender a literatura, as artes, tem mais capacidade de conectar conceitos”, afirma.

É justamente esta característica integradora e questionadora das disciplinas que, para os especialistas, coloca por terra o argumento de que a filosofia e a sociologia não teriam lugar no atual ou em um possível novo projeto para o ensino médio. A oposição entre formação pré-acadêmica e preparação para o mundo do trabalho, que assombra toda a discussão sobre o ensino médio e assombraria sobremaneiras as duas disciplinas da área de humanas, seria uma falsa polêmica. Até mesmo porque a resposta para a questão passa também por analisá-la à luz das contribuições dos pensadores da filosofia e da sociologia.

“Esta discussão, de se queremos uma escola técnica ou acadêmica – propedêutica – é um dilema que carregamos há muitos anos, mas não se tem uma discussão profunda e definitiva a respeito”, comenta Amaury César Moraes, professor de Metodologia do Ensino de Ciências Sociais na Universidade de São Paulo (USP). “Mas, certamente, um professor de sociologia pode colocar tal tema no seu programa de curso, coisa que nenhum outro pode fazer, quer por falta de competência, quer por falta de pertinência.”

Produtivismo

O que afetaria mais diretamente a sustentação das disciplinas no currículo é, justamente, uma visão produtivista de educação. Para Adriana, “a lógica do resultado, do ranqueamento, das provas de desempenho, do apostilamento da educação” é o que faz com que as disciplinas que exigem uma didática diversa sejam consideradas um incômodo. E, ao mesmo tempo, essa mesma lógica também impede o desenvolvimento de bons projetos em sala de aula.

A equipe da UFSCar avaliou, por exemplo, o material que é distribuído aos professores da rede estadual de São Paulo. “Está muito distante do que os bons cursos de filosofia oferecem como formação. Não usa autores clássicos, mas sim uma bibliografia que o próprio recém-egresso não reconhece como fundamental”, comenta Adriana. Mas mesmo sem se identificarem com o material, os professores se veem impelidos a utilizá-lo porque ele estará na base das avaliações de resultados oficiais.

No ensino médio, a gestão a partir de provas e rankings se soma à já histórica imposição da lógica do vestibular – igualmente impregnada pela necessidade de alcançar resultados. “O currículo atual, lotado pela língua portuguesa, matemática, física, química, biologia, história e geografia, está aí porque os vestibulares pedem-nas: não formam o homem, o cidadão, nem preparam para o trabalho”, diz Moraes.

Ele lembra, ainda, que não há como ter uma lista de conteúdos definida e unânime em sociologia e filosofia. “Em parte por conta da intermitência da presença delas no currículo, mas também porque essas disciplinas não visam somente passar um conteúdo definido para os alunos”, afirma. “O que se ensina em sociologia não se reduz a uma matéria – nomes, obras, ideias, temas etc. -, mas a formas de pensamento ou modos de pensar, em que tais ideias, temas, obras, etc. são uma referência e não o centro.”

Neste cenário, é difícil até mesmo para gestores e professores de outras disciplinas compreenderem para que servem as duas disciplinas no EM. Para a professora Juliana Nóbrega, que leciona filosofia na rede estadual em Santos (SP), há vários olhares sobre a presença da sua disciplina na escola, todos pouco elogiosos. “São disciplinas que vieram para tirar aulas de outros professores; que vieram para questionar ordens e outros conteúdos; que não servem para nada a não ser ficar conversando; que qualquer um é capaz de lecionar, já que basta ler um texto e responder questionários ou colocar os alunos para debater um tema polêmico; há aqueles que confundem a disciplina de filosofia com o ensino de ‘valores’ e normas de convivência, ou religião e misticismo”, enumera. “Neste aspecto, não há um padrão de pensamento por grupo, mas gestores e professores mesclam tais ideias.”

Essas foram as principais razões para que o professor de filosofia Eduardo Amaral deixasse as salas de aula. “A lida com a instituição escolar, com seus limites e restrições, com as condições de trabalho que bem conhecemos e com o vício de ter alunos que pouco desejam estar na escola e na sala de aula – o que é inevitável em uma escola como essa – foram aos poucos minando a imagem em que eu me projetava como professor”, relata.

Formação e mobilização

No caso específico das duas disciplinas, as condições de trabalho são, em geral, pioradas pela pequena carga horária. Os professores, ou ganham pouco, ou são praticamente obrigados a fragmentar sua rotina diária entre várias escolas. Isso tende a criar um alto nível de desistência da carreira docente pelos licenciados em sociologia e filosofia. Ao mesmo tempo, as duas disciplinas acabam sendo ofertadas a docentes de outras áreas para que eles completem a carga horária que precisam cumprir.

Os professores “leigos” são 75% do público do curso de especialização na área da sociologia coordenado por Daniel Mocelin no ForProf/UFRGS. “Os professores não formados na área demandam uma formação básica, buscam indicações bibliográficas e material didático. Muitos afirmam que não há material disponível, mas essa ocorrência diz respeito ao seu déficit de formação com os temas sociológicos”, comenta. “A interdisciplinaridade é um foco de nosso curso, mas não podemos deixar de lado as especificidades da sociologia.”

No curso oferecido pelo Laboratório de Ensino de Filosofia (Lenfi) da UFSCar, a realidade é semelhante. Adriana diz que a dedicação dos docentes não formados na área é admirável e políticas voltadas para sua formação são altamente necessárias. “Um leigo não consegue fazer um bom trabalho, mesmo com toda a disposição que possa ter”, afirma.

Helder Santos Pereira é formado em pedagogia e dá aulas de filosofia na rede pública de Alagoas. É aluno do curso do Lenfi, que – assim como o do ForProf/UFRGS – é oferecido na modalidade de ensino a distância. “O curso tem sido determinante em minha prática docente”, diz Pereira. “Nós, professores de filosofia, temos no curso a atualização de um conjunto de práticas já efetuadas que nos proporciona validação de caminhos, reelaboração ou refutação promovidas por um intenso contato com o texto filosófico e este é, sem dúvida, o melhor caminho para a formulação do pensamento autônomo do aluno do ensino médio.”

Se os cursos de especialização criam a oportunidade de dar conta da formação desses professores leigos, no caso dos formados nos cursos específicos, eles são espaços de aprimoramento. Tanto para Mocelin e Moraes, como para Adriana, a universidade dá uma base sólida de conhecimentos nas ciências sociais e na filosofia para os futuros professores. No entanto, a própria realidade da educação no país acaba desestimulando-os a procurar o magistério.

“Enviamos regularmente alunos da graduação para observações e estágios nas escolas, e nem sempre esses estágios são produtivos, pois os alunos voltam com impressões ruins sobre as aulas de sociologia no ensino médio, com exceções, evidentemente”, comenta Mocelin. Na UFSCar, segundo Adriana, não é incomum que os bolsistas do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid) desistam da carreira docente.

Há ainda pouca tradição da Academia em pensar o ensino dessas disciplinas, cuja presença na escola foi intermitente. “O fato é que a sociologia retornou recentemente ao currículo; não se trata de uma área consolidada na escola. Os estagiários, muitas vezes, estão mais bem formados que os professores em atuação”, comenta Mocelin. Na filosofia, Adriana acredita ser necessária uma nova mobilização, semelhante à alcançada no período anterior à aprovação da Resolução 01/2009, para que a educação e o ensino tomem lugar de destaque nos cursos de graduação e pós-graduação.

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