As figuras que enfeitam

Se o argumento é o que faz brilhar uma ideia, não se pode desprezar o papel figurativo num discurso

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A Lógica trata dos raciocínios necessários, ou seja, aqueles cuja conclusão decorre obrigatoriamente das premissas enunciadas. Já a Retórica ocupa-se dos raciocínios cuja conclusão é provável, plausível, possível, mas não necessária. Versa não sobre o que é verdadeiro, mas sobre o que é preferível (aquilo que é menos pernicioso, mais útil, mais adequado etc.) num dado momento para uma determinada comunidade.

Para Michel Meyer, em sua introdução à Retórica de Aristóteles, a unidade sobre a qual se debruça a Retórica é o discurso, manifestado pelos textos, quando discute o que é provável, incerto, contestável, quando apresenta o que poderia ser diferente ou poderia não ser. Tem por objeto uma discursividade diferente da examinada pela Lógica. Para o autor, a Retórica visa a estabelecer uma "negociação da distância entre sujeitos", no sentido de que ela produz efeitos pragmáticos e passionais (por exemplo, ameaça, indignação, apaziguamento) com vistas à adesão a uma tese que se pretende comum entre o que produz o texto e aquele que o recebe. O enunciador leva em conta o questionamento do outro, para que ele possa ser persuadido. Isso põe em questão a dimensão sensível da linguagem.

A retórica antiga estudava cinco operações: invenção (
inventio

), disposição (
dispositio

), elocução (
elocutio

), desempenho do orador (
actio

) e memória (
memoria

). A invenção é o ato de encontrar argumentos e não de inventá-los. São lugares-comuns (
tópoi

), como o argumento da quantidade: o que é mais é melhor. A disposição é a operação em que se dispõem os argumentos numa sequência. A elocução é a composição linguística do discurso, é a textualização.

Mais tarde, muitos autores começam a fazer uma distinção no que era um conjunto indissociável: de um lado, havia uma teoria da argumentação, que levava em conta as operações da invenção e da disposição, onde estariam os elementos destinados a convencer e persuadir (a topologia); de outro, havia uma teoria das figuras, que se ocupava da elocução (a tropologia, a teoria dos tropos). A palavra grega trópos significa "direção", "maneira", "mudança". No caso da linguagem, pensa-se em "mudança de sentido, de orientação semântica". Assim, começou-se a pensar em duas Retóricas: a da argumentação e a dos tropos. Genette mostra que, ao longo da História, houve restrição da Retórica: primeiramente, amputou-se-lhe a teoria da argumentação e da composição e ela ficou restrita à teoria da elocução; depois, a elocução reduziu-se a uma tropologia, ou seja, a uma teoria das figuras.


Qualidades



Segundo Cícero, no De oratore, quatro são as qualidades da elocução (
virtutes elocutionis

): correção (
latinitas

), clareza (
planum

), ornamentação (
ornatus

) e adequação do discurso às circunstâncias (
aptum

) (III, X). As três primeiras características estão a serviço da quarta. São elas que criam a adequação. Isso significa que uma qualidade como a correção não é algo intrínseco à língua, depende do tipo de discurso, de seu gênero etc. Também a clareza tem um papel discursivo. Diz Vieira no Sermão
da Sexagésima:

"O mais antigo pregador que houve no Mundo foi o céu.
Coeli enarrant gloriam Dei et opera manuum ejus annuntiat firmamentum

– diz Davi. Suposto que o céu é pregador, deve de ter sermões e deve de ter palavras. Sim, tem, diz o mesmo Davi; tem palavras e tem sermões; e mais, muito bem ouvidos.
Non sunt loquellae, nec sermones, quorum non audiantur voces eorum

. E quais são estes sermões e estas palavras do céu? – As palavras são as estrelas, os sermões são a composição, a ordem, a harmonia e o curso delas. Vede como diz o estilo de pregar do céu, com o estilo que Cristo ensinou na terra. Um e outro é semear; a terra semeada de trigo, o céu semeado de estrelas. O pregar há de ser como quem semeia, e não como quem ladrilha ou azuleja. Ordenado, mas como as estrelas:
Stellae manentes in ordine suo

. Todas as estrelas estão por sua ordem; mas é ordem que faz influência, não é ordem que faça lavor. Não fez Deus o céu em xadrez de estrelas, como os pregadores fazem o sermão em xadrez de palavras. Se de uma parte há de estar branco, da outra há de estar negro; se de uma parte dizem luz, da outra hão de dizer sombra; se de uma parte dizem desceu, da outra hão de dizer subiu. Basta que não havemos de ver num sermão duas palavras em paz? Todas hão de estar sempre em fronteira com o seu contrário? Aprendamos do céu o estilo da disposição, e também o das palavras. As estrelas são muito distintas e muito claras. Assim há de ser o estilo da pregação; muito distinto e muito claro. E nem por isso temais que pareça o estilo baixo; as estrelas são muito distintas e muito claras, e altíssimas. O estilo pode ser muito claro e muito alto; tão claro que o entendam os que não sabem e tão alto que tenham muito que entender os que sabem".

Não cabe nos limites deste texto discutir todas essas características da elocução. Interessa-nos a ideia de
ornatus

, que foi entendido como embelezamento da linguagem com figuras, com tropos. A figura era vista como um enfeite e, como tal, desnecessária, como um "luxo do discurso". Com isso, esvazia-se a dimensão tropológica da retórica de sua função argumentativa.


Ornamento



Comecemos por entender o significado de
ornatus

em latim. Corresponde ao grego
kósmos

, o contrário do caos.
Ornamentum

significa "aparelho, tralha, equipamento, arreios, coleira, armadura". Só depois quer dizer "insígnia, distinção honorífica, enfeite". No
De bello gallico

, deve-se traduzir a passagem "naves (…) omni genere armorum ornatissimae" (III, XIV, 2) como "navios equipadíssimos de todo tipo de armas". O sentido inicial de ornatus não era enfeite, mas bem argumentado, bem equipado para exercer sua função. Isso significa que não há uma cisão entre argumentação e figuras, pois estas exercem sempre um papel argumentativo. O
ornatus

no dizer de Vieira é a ordem das estrelas, "mas é ordem que faz influência, não é ordem que faça lavor" (= enfeite). A Retórica a Herênio diz que a ornamentação serve para realçar, enriquecer aquilo que se expõe (
Exornatio est, qua utimur rei honestandae et conlocupletandae causa, confirmata argumentatione:

II, 28, p. 118). Não podemos esquecer-nos de que a palavra "argumento" é formada com a raiz argu-, que significa "fazer brilhar, cintilar" e está presente nas palavras portuguesas "argênteo", "argentário", "argento", "argentar", "argentaria", "argentífero", provindas do latim argentum (prata). O argumento é o que realça, o que faz brilhar uma ideia.


José Luiz Fiorin


é professor do Departamento de Linguística da USP e autor de As astúcias da enunciação  

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