As crônicas de um poeta

Uma seleção dos textos de Manuel Bandeira, que também embarcou nesse gênero nascido nos jornais e capaz de atrair leitores de todas as idades

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O poeta Manuel Bandeira (1886-1968) viajou o Brasil à procura do clima que pudesse proporcionar mais conforto aos pulmões, diante do quadro de tuberculose, doença considerada gravíssima à época. Tempo de estrada e assuntos para crônicas não faltaram ao poeta pernambucano, que viveu seus 82 anos. Não considerava o gênero sua especialidade, embora também o exercitasse a respeito de variados temas e formas, como mostra a recém-lançada seleção Manuel Bandeira: crônicas para jovens.


Os 21 textos estão divididos em cinco eixos temáticos. O primeiro, e talvez o mais autobiográfico, dedica-se às memórias da adolescência, à descoberta de seu diagnóstico e à relação de carinho com a família. Um traço marcante dessa parte é a narrativa em primeira pessoa, que reaparece em outros momentos do livro. É uma das características que evidenciam um sentimento de liberdade do autor ao transitar por esse gênero, que consagrou Rubem Braga. Ao escritor, Bandeira se refere como “o príncipe da crônica”, em “O pavão de Braga”, que compõe a segunda seção do volume, só de reverências a ilustres personalidades ligadas à cultura.


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Carlitos, a grande criação de Charles Chaplin, também é lembrado. Afinal, “haverá sucesso que valha a força de ânimo do sujeito sem nada neste mundo, sem dinheiro, sem amores, sem teto, quando ele pode agitar a bengalinha como Carlitos com um gesto de quem vai tirar a felicidade do nada?”, pergunta Bandeira ao leitor, brincando com imagens clássicas do cinema.


Na crônica “Rosa em três tempos”, o poeta faz uma homenagem a Guimarães Rosa, observando a habilidade do mineiro de encontrar novas expressões. “Uma das invenções mais surpreendentes de Rosa foi aquela de falar ‘nesta outra vida de aquém-túmulo’. (…) Agora é tarde, está achado, e o único jeito é plagiar”, declara.


Mas não só sobre os ilustres escreveu o cronista. A “gente humilde”, os “incômodos do poeta” e a “política, igual em toda parte” não escaparam de seu olhar arguto. Foi consultor dos poetas iniciantes, deu resposta a um crítico desdenhoso e até contou a história do governante que confiou o cargo de professor de grego a um amigo que não sabia o idioma. O que acontece ao final de cada história só o próprio Manuel Bandeira é quem, de forma ágil e cativante, pode contar.


O livro é parte da recém-lançada série “Crônicas para jovens”, da editora Global, que fica completa com outros seis volumes, cada qual com seleções de um autor diferente: Ferreira Gullar, Marcos Rey, Affonso Romano de Sant’Anna, Cecília Meireles, Ignácio de Loyola Brandão e Marina Colasanti.

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