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Diretora do Instituto de Estudos em Educação da Universidade de Toronto defende a readaptação das universidades para se adequar à realidade das plataformas abertas …

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Diretora do Instituto de Estudos em Educação da Universidade de Toronto defende a readaptação das universidades para se adequar à realidade das plataformas abertas para formação on-line

por Beatriz Rey, de Chapel Hill (EUA)

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instituição que ocupa o 21o lugar no ranking do Times Higher Education, a Universidade de Toronto, no Canadá, encontra-se atualmente frente a uma série de desafios. A começar pelo convênio firmado recentemente com o Coursera, plataforma on-line de aprendizagem que oferece os chamados Massive Open Online Courses (MOOCs, cursos on-line que visam o acesso em larga escala e participação aberta via web). Uma das instituições que serão presentadas aos gestores que participam da 5a Missão Técnica Internacional do Semesp, que acontece entre os dias 17 e 26 de maio, a Universidade de Toronto foi a primeira a adotar o modelo dos MOOCs no país. Desde o ano passado, oferta cinco aulas em três áreas distintas: ciência da computação, serviço social e educação. O curso desenvolvido sobre a temática educacional (“Visões aborígenes e educação”) é oferecido pelo Instituto para Estudos em Educação (OISE). “Os primeiros cursos nesse tipo de plataforma foram instituídos há 18 meses, mas já estamos nos perguntando como podemos incorporar essas novas plataformas ao programa universitário tradicional”, comenta Barbara Bodkin, diretora do departamento de Educação Continuada do OISE.

Na entrevista a seguir, Barbara problematiza a inserção dos MOOCs no ensino superior e comenta as inovações implementadas pelo OISE para inserir os alunos em um contexto global, como a aposta em parcerias com instituições educacionais da China e o esforço para internacionalizar as práticas de pesquisa. “Ninguém sabe ainda qual será o resultado, mas eles [os cursos on-line] mudarão o estado das coisas no ensino superior”, assevera. Além disso, ela relata que os altos custos das mensalidades têm levado a população canadense a refletir a respeito do ensino superior e cobrar a qualidade do trabalho docente. “Cada vez mais, a população cobra a instituição de centros de suporte a esses profissionais, para que eles melhorem suas práticas”, afirma.

Ensino Superior: A estrutura organizacional da Universidade de Toronto é descentralizada. Quais são os benefícios desse tipo de gestão para o seu trabalho?
Barbara Bodkin: A universidade tem três campi, uma rede com dez hospitais universitários, diversas faculdades etc. Fica muito difícil, então, pensar em uma solução única de gestão no que diz respeito à universidade. Cada “divisão”, estabelecida por área profissional, como medicina ou educação, tem muita liberdade no que diz respeito à gestão do trabalho. Justamente por isso, temos uma estrutura extremamente complexa de governar. Apesar de o conselho de governança estabelecer políticas para a instituição, cada área tem a liberdade de se organizar e identificar procedimentos apropriados para seu próprio contexto. Esse sistema é importante porque permite que decisões sejam tomadas no nível local, de acordo com as necessidades de cada área. A descentralização é ainda maior quando pensamos que cada “divisão” tem um departamento de educação continuada. Essa concepção de educação continuada foi instituída com a fundação da universidade em 1837. A ideia era usar esses “braços” das divisões para oferecer cursos de interesse público. Mas também há universidades no Canadá que só contam com um departamento de educação continuada para a instituição.

Qual o impacto do convênio com o Coursera para a universidade?
Ainda é difícil dizer. Especulo que com o crescimento constante do número de matrículas dos cursos de graduação nas universidades mundo afora, em algum momento teremos de pensar sobre possíveis métodos mistos de aprendizagem. Acredito que em pouco tempo as universidades não terão mais espaço nem a verba para acomodar esse montante de alunos que buscam o ensino superior. O objetivo dos MOOCs é democratizar a aprendizagem. É um movimento contra a monetização da educação, já que os cursos são abertos. Os primeiros cursos nesse tipo de plataforma foram instituídos há 18 meses, mas já estamos nos perguntando como podemos incorporar essas novas plataformas ao programa universitário tradicional. Uma possibilidade é exigir, por exemplo, exames ao final do MOOC para que o aluno obtenha crédito em um curso de graduação tradicional. Como isso ainda não está acontecendo, então ninguém sabe qual será o resultado. Mas há pistas. Um artigo do The Chronicle of Higher Education relata que o dono de uma grande empresa buscou uma parceria com os MOOCs para saber quais eram os 20 melhores alunos em cursos específicos com o intuito de entrevistá-los para possíveis vagas de emprego. É um caminho.

Há quem questione a eficiência dos MOOCs, já que as taxas de evasão são grandes.
Isso é uma realidade. Apesar de 100 mil pes­soas se inscreverem para os cursos, um número muito diferente desse vai até o final. Mas mesmo que 20 mil concluam o programa, ainda é um número expressivo. Os MOOCs são uma oportunidade para que alunos de diversas partes e com diversos históricos aprendam de alguma maneira. Você não precisa ser aluno para fazer um curso desses. Há um benefício para quem é aposentado, por exemplo, e deseja continuar estudando. Mais uma vez, não há como saber o resultado final desse movimento, mas é possível dizer que ele mudará o estado das coisas no ensino superior.

Você acredita que a tecnologia pode, então, trabalhar a favor do aluno?
Em nosso instituto, já fizemos projetos com escolas locais sobre o uso de novas tecnologias e softwares em sala de aula. Essas ações tinham como objetivo primordial a aprendizagem do aluno, e não apenas o uso dos aparatos tecnológicos. As perguntas que precisam ser respondidas no meio educacional são: qual o objetivo do uso da tecnologia? Ela aumenta a colaboração entre estudantes? Qual ferramenta um professor deve usar para um determinado propósito pedagógico? Qual o valor do aprendizado online? A tecnologia se transforma a cada dia, e por isso precisamos pensar em como usá-la com nossos próprios alunos.

Há ações concretas no OISE em prol da internacionalização? Por que ela é importante?
Quando pensamos sobre o nosso trabalho, vemos que ele é muito maior do que Ontario [província mais populosa do país] ou Canadá. O escopo é muito mais internacional do que já foi um dia. Temos, por exemplo, uma parceria com o Ministério da Educação da China. Mandamos nossos estudantes para ensinar inglês para professores chineses durante o verão. Isso gera um impacto imediato em termos de visão de mundo. Além disso, a cada vez que você ensina, necessariamente acaba refletindo sobre sua própria prática. Por que ensinei desse jeito? Outra ação diz respeito ao esforço de internacionalizar as práticas de pesquisa acadêmica. Muitos dos nossos professores têm uma longa história com pesquisa internacional, mas agora estamos pensando em como estruturar parcerias que extrapolem ações individuais dos docentes.

Quais os benefícios dessa internacionalização?
O maior objetivo de todo tipo de pesquisa feito em uma universidade é a mobilização de conhecimento. Os benefícios são, portanto, imensos. Quando há uma parceria entre universidades de países diferentes, há mais produção acadêmica. Além disso, ela abre portas para outros tipos de colaboração, como a possibilidade de que estudantes de uma instituição façam parte do curso em outra. Ou então que esses alunos façam o mestrado em uma universidade e o doutorado em outra. A Universidade de Toronto investe nisso. Temos um departamento de pesquisa que dá suporte à pesquisa acadêmica para todos os departamentos. Além disso, cada docente tem sua própria trajetória de pesquisa. Há também uma reitoria focada somente nessa área, que se dedica à busca de verba para que as coisas se concretizem. Outra coisa interessante, menos relacionada com a internacionalização de pesquisas acadêmicas, é a mobilidade dos estudantes. Uma vez que a instituição se internacionaliza, os caminhos para o futuro são variados.

Qual o método usado pela Universidade de Toronto para avaliar seus professores?
A universidade implementou um sistema novo de avaliação dos cursos que coloca a avaliação nas mãos dos alunos. Ele foi desenvolvido pelo Centro de Ensino e Inovação com o intuito de criar mais oportunidades para que os estudantes contribuam. Esse material é recebido pelos comitês responsáveis ao final de cada ano acadêmico para determinar a avaliação de cada docente. Há uma angústia no país em relação à avaliação desses profissionais. A Universidade de Toronto é uma instituição pública de ensino considerada “de elite”, e, por isso, o custo das mensalidades tem subido muito. Então, a população se questiona sobre o nível da qualidade dos docentes que lecionam aqui. Os professores, por sua vez, reclamam que o seu salário é calculado para pagar o trabalho desenvolvido em pesquisa, e não em ensino. Cada vez mais, a população cobra a existência de centros de suporte aos docentes, para que eles melhorem suas práticas. Porque os professores são contratados por entender profundamente uma determinada área, mas não são contratados por suas habilidades docentes. Os docentes ingressam em universidades após investirem muito de sua carreira em pesquisa, não em docência.

Há uma maneira justa de avaliar o trabalho desses profissionais?
O ideal seria um modelo triangular. Seria preciso associar dados do próprio professor, como os gerados por uma autoavaliação, informações coletadas com os alunos desse docente, e o parecer do chefe de cada departamento. É difícil ter uma medida justa. Pode-se começar pela definição do que se espera como resultado final de um curso, para então avaliar se os alunos alcançaram as expectativas ou não.

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