Aprendizado no espelho

Prática comum em muitas escolas, a autoavaliação pode ser prejudicial aos alunos caso não seja bem conduzida e os professores não estejam preparados para ela

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© iStockphoto
O peso que uma autoavaliação pode ter para os estudantes é um dos pontos que preocupam os especialistas

Em grandes empresas, ao final de cada etapa de um trabalho, os funcionários são obrigados a fazer uma autoavaliação – devem refletir sobre seu próprio desempenho e se preparar para uma discussão de resultados com seus gestores, apontando seus erros e acertos e traçando estratégias e planos de carreira. Muitas escolas adotam o processo com seus alunos: esperam que eles reflitam sobre sua postura em sala, se atribuam notas, ou discutam seu desempenho com os professores. As formas variam, mas a autoavaliação tem feito cada vez mais parte do ambiente escolar, sob o argumento de ser uma prática formativa. Enquanto o método busca a eficiência na rotina empresarial, na escola, quais são seus limites e resultados efetivos? Será que as crianças estão preparadas para esse exercício?

O professor titular da Faculdade de Educação da USP (Feusp) Julio Groppa Aquino explica que a avaliação é, em si, intrínseca ao universo pedagógico. O método, de papel fundamental para os educadores, foi implementado no ambiente escolar a partir do século 18. Julio reflete, porém, que na contemporaneidade, a avaliação acabou ultrapassando os muros da escola. “Hoje, podemos dizer que vivemos em uma sociedade pedagogizada, em que cada um faz julgamentos sobre o outro e sobre si mesmo o tempo todo. Vivemos analisando nossa postura frente a qualquer situação e essa prática do dia a dia foi incorporada também pelo mundo corporativo. Vemos que é muito frequente a busca pela formação de um profissional capaz reconhecer seus pontos fortes e fracos, se gerir sozinho e obter sucesso”, compara.

Crianças, porém, não são adultos enfrentando as estruturas do mercado de trabalho. Muitos que passam pela experiência sentem desconforto com relação à prática. Mãe de duas alunas de ensino fundamental e médio, Silvia M. diz que o colégio das adolescentes acaba de inserir esse processo no currículo, e confessa que sente que as filhas não estão aptas para se autoavaliar. “Elas são muito esforçadas, são boas alunas e sempre notei que já se cobravam bons resultados. Agora sentem uma responsabilidade ainda maior, e percebo que elas começaram a fazer autocríticas excessivas. Além disso, como nunca tiveram contato com um procedimento assim, sabemos que elas não têm ferramentas suficientes e não se sentem confortáveis em fazer esse julgamento”, relata.

O peso que uma autoavaliação pode representar para os estudantes é um dos pontos questionados por Julio. “Se para um adulto essa missão é complicada, imagine para uma criança ou adolescente. Não tem como negar: é muito difícil se compreender como sujeito e autor da própria avaliação.” Para ele, atualmente estamos muito acostumados a avaliar tudo o que nos cerca, porém, entre o julgamento moral e o escolar há uma grande diferença. “Não podemos concluir que a avaliação escolar seja a tradução do gesto avaliativo do cotidiano.”

Prejuízos

Muitos defendem que a participação do aluno no processo de avaliação é fundamental e inerente à rotina escolar. Entretanto, a questão é o como: para que funcione, a autoavaliação não deveria ser classificatória, mas sim formativa, muito bem elaborada, pedagogicamente embasada e livre de obrigações. “É inegável que o processo reflexivo tem sua importância, todavia é necessário dar ferramentas e caminhar junto ao aluno para que ele amadureça e possa, dia a dia, tomar consciência sobre seu aprendizado de um jeito espontâneo, sem pressão”, pondera Quézia Bombonatto, psicopedagoga e diretora da Associação Brasileira de Psicopedagogia.

O problema é que algumas escolas se limitam a oferecer ferramentas isoladas, como formulários com perguntas sobre desempenho e comportamento com o intuito de guiar os alunos e fazê-los refletir sobre esses aspectos apenas em datas determinadas. Quando o método fica rígido e dá mais valor ao que é registrado do que ao propósito de crescimento do aluno, acaba perdendo o sentido. “Essa burocratização é ruim. Fichas preenchidas em troca de notas estão na contramão do desenvolvimento e da autonomia moral e intelectual. Isso pode causar um sério prejuízo à autoestima do jovem, portanto trata-se de uma questão ética”, defende Jussara Hoffmann, mestre em avaliação educacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pesquisadora e consultora em educação.

A mesma opinião é compartilhada pelo professor da Universidade de São Paulo Yves de La Taille. “Se a autoavaliação contar nota perde todo o sentido, pois o estudante acabará respondendo conforme os critérios exigidos pela instituição”, pondera. O especialista em avaliação Cipriano Carlos Luckesi concorda. Para ele, usado dessa forma, o método acaba sendo visto pelo estudante como uma formalidade, e ainda pode ter seu objetivo distorcido. “Se a nota que o aluno se atribui tem uma certa influência em sua aprovação, qual é o pré-adolescente ou adolescente que seria condescendente com ele mesmo ao se atribuir conceitos?”, questiona.

Medo da honestidade

E como medir a honestidade do aluno em suas respostas? Há relatos de casos de alunos que acreditam que têm ótimos desempenhos, mas têm medo de expressarem satisfação por seu desempenho, por imaginarem que o professor tem uma visão inferiorizada deles. “Isso sem contar situações enganosas, em que o estudante verbaliza que precisa melhorar por acreditar que só assim pode se livrar com mais facilidade daquela situação incômoda”, diz Quézia.

A pesquisadora Jussara, da UFRJ, ressalta a importância do diálogo e das devolutivas por parte dos docentes para evitar situações como essas. Ela exemplifica com o caso de uma aluna do quinto ano do ensino fundamental com histórico de reprovação: “Os professores a descreviam como uma menina perdida, distraída e desintegrada do grupo, que não participava nem compreendia os conteúdos básicos desenvolvidos em sala, com dificuldade para compreender e interpretar a ordem dos exercícios, e com problemas para se expressar de forma escrita e oral. Porém, ao conversar com a estudante, os docentes contaram que a menina não reclamava de nada e parecia não ter consciência das suas dificuldades, ou não queria falar de seus sentimentos. Podemos notar aqui que há sérias contradições entre o modo como os professores a viam e como ela se percebia”, relata.

Nos últimos dez anos, Jussara acompanhou cerca de 200 casos de alunos com dificuldade de aprendizagem por meio do Programa de Assessoria em Avaliação Educacional – realizado com diferentes grupos de docentes de todo o Brasil, de redes de escolas públicas e privadas. Sua constatação é a de que os alunos que não recebem uma boa orientação não são capazes de enxergar com clareza suas dificuldades e pontos positivos, nem seu desenvolvimento intelectual e moral.

O equilíbrio

Na busca pela equação do equilíbrio, a regra é não ter regras, e basear as ações no diálogo entre alunos e professores. “Tudo deve ser acompanhado de perto, com intervenções em doses homeopáticas para que não seja desconfortável para os pequenos. Nada de relatórios nem pressão. A cada dia se avalia um ponto, dando respostas ao aluno, contando a ele e fazendo-o perceber como foi seu desempenho, ensinando-o a enxergar seus pontos fracos e fortes nas tarefas propostas”, sugere Quézia.

Nessa linha, Jussara acredita necessário fazer o estudante participar do processo o tempo todo, desde o primeiro dia de aula, a partir de processos interativos que sejam divertidos para os pequenos, que tragam desafios cognitivos, apontando suas conquistas, ouvindo suas perguntas e deixando-os curiosos sobre seus avanços. Ou seja, o professor deve exercer papel de intercessor, fazendo, gradativamente, o aluno tomar consciência de seu processo de aprendizado.

O professor Yves de La Taille concorda. “A princípio, o professor precisará estimular a criança, fazer com que ela vá percebendo sua atuação. Mas com o passar do tempo, os estudantes vão formando parâmetros complexos, passam a se compreender de forma mais espontânea, entendem que são aprendizes e buscam o aprendizado. Sendo assim, a autoavaliação não soa como uma norma, nem vira algo mecânico”, defende.

A discussão passa ainda pelo campo do autoconhecimento e da autonomia. “Tais processos permitem que os próprios estudantes tomem a iniciativa de buscar ajuda para progredir em seus estudos, de se desenvolver a ponto de

serem capazes de assumir e superar problemas pessoais e profissionais em outras circunstâncias da vida”, defende Jussara.

Para Cipriano, a autonomia se conquista a partir dessa autoconsciência, que possibilita agir por conta própria. “É preciso fazer isso com base em processos psicológicos livres do medo e da culpa”, afirma. E lembra que todo processo avaliativo precisa do acompanhamento de um adulto. Quézia  concorda. “Crianças e adolescentes devem se deparar frequentemente com suas habilidades, competências e defasagens, sempre guiadas pelo orientador. Processos fixos, que cumpram uma tabela, não são a melhor opção. Só se chega à autonomia realmente soltando as amarras e podendo olhar o processo como um todo e não de forma pontual.”

Procedimentos formais e burocráticos funcionam bem para empresas, mas na escola essa iniciativa deve ser mais desprendida. “Os alunos devem, sim, ser participativos em seu processo educativo para que sejam capazes de tomarem decisões no futuro, entretanto, isso só vai acontecer em ambientes generosos com o estudante, quando ele percebe atitudes positivas dos professores frente a seus erros e tentativas. A responsabilidade e a curiosidade do aluno não sobrevivem a processos autoritários e diretivos de ensino e avaliação”, diz Jussara.

 O professor sob avaliação
A formação de professores é um dos desafios para encontrar critérios claros na construção de uma autoavaliação para os alunos, no Brasil e em outros países. Em 2009, o pesquisador Carlos Alberto Ferreira, da Universidade do Minho, de Portugal, acompanhou estagiários pedagógicos na realização de práticas de autoavaliação realizadas com alunos do 1o ciclo do ensino básico português. Os alunos de pedagogia tiveram a tendência de avaliar, essencialmente, o comportamento dos alunos na sala de aula e fora dela, embora, de forma menos sistemática e mais superficial, também tivessem sido realizadas práticas de autoavaliação das aprendizagens dos conteúdos pelos alunos. Mas, nesses casos, os critérios de avaliação eram pouco precisos, a autoavaliação produzida não era muito rigorosa e havia diferenças nos critérios utilizados. Uma das observações do pesquisador foi que os estagiários utilizavam os resultados mais como forma de reforço e de punição dos alunos, e menos como um retorno pormenorizado sobre os aspectos a melhorar e de meios para a regulação da aprendizagem pelos alunos. O pesquisador cita o sociólogo e antropólogo Philippe Perrenoud: “A avaliação formativa constitui uma função da avaliação que visa ajudar o aluno a aprender, mas também o professor a ensinar”.

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