Aprender é uma prisão?

Entre o professor carcereiro e o aluno aprisionado, vale a pena pensar para transcender?

SHARE
, / 546 0





Gustavo Morita
Foi divulgada e compartilhada no Facebook a fotografia de uma página de apostila do ensino médio. A matéria é filosofia. A questão visualizada pergunta ao aluno se concorda com o raciocínio de que “liberdade é, em parte, a compreensão da necessidade”. A resposta foi a seguinte (ipsis litteris):


Não concordo com esse raciocínio! Na verdade eu nem li, tenho coisa melhor pra fazer! Eu poderia tá dormindo, poderia tá jogando video game, mexendo no computador, mais to aqui, PRESO numa sala de aula, onde um professor de filosofia quer me falar sobre liberdade. Serio mesmo isso? Eu aqui PRESO, CONTRA a minha vontade e estudando “LIBERDADE”. Quanta ironia!!!

#R#


Os pequenos erros de ortografia (“mais” em lugar de “mas”, “sério” sem acento) e o tom coloquial, certamente inadequado naquele contexto, são o que menos preocupa. O que de fato chama a atenção são as reações do aluno e do professor.


O professor deu nota zero à resposta, se é que o zero é uma nota. E o aluno por sua vez já havia anulado a pergunta, denunciando o que lhe parecia ser uma terrível contradição. Como falar a respeito da liberdade, sentindo-se prisioneiro numa sala de aula?


Duas liberdades
O zero que o professor deu não é uma nota. É o esgotamento, a redução, o nada. Mas o aluno tinha respondido, sim, à questão, dizendo discordar do raciocínio proposto no enunciado. Para o estudante, liberdade não é, mesmo em parte, a compreensão da necessidade. Sua resposta está carregada de revolta, é superficial, mas não merecia a anulação pura e simples.


O aluno não quis ler a questão, embora a tenha lido. Pior reação, porém, foi a do professor, que não soube ler as entrelinhas da resposta.


Faltou ao professor dar continuidade à avaliação. O aluno questionou a questão, e merecia receber uma resposta melhor do que um zero. Caberia ao mestre mostrar a seu aluno que existem pelo menos duas concepções de liberdade.


A liberdade de movimento é uma delas. A outra é a liberdade das atitudes. O aluno refere-se apenas à primeira. Sente-se aprisionado. Até dormir seria melhor do que assistir às aulas de filosofia. A menção ao computador e ao videogame demonstra seu desejo de ação, distração, navegação…


O jovem estudante parece desconhecer a definição de liberdade interior. Graças a essa liberdade, podemos, ainda que submetidos a grandes restrições no plano físico e material, decidir a favor de determinadas ideias e valores.


A escola aparece como uma espécie de presídio no qual os jovens devem permanecer contra a sua vontade. Buscar o conhecimento não é encarado como uma ação libertadora. Há, na visão do aluno, coisas muito mais interessantes do que estudar. Sua percepção está limitada ao nível das sensações imediatas. O aluno estava preso dentro da caverna.


Educar para a liberdade
Da parte do professor, também ele não soube exercitar-se na liberdade de atitudes. Ao reagir de maneira simplista à resposta simplista do aluno, perdeu a oportunidade de educar. Não soube ensinar o que é liberdade e não conseguiu mostrar, como educador, que ser livre é mais do que responder a uma questão de apostila.


A apostila ofereceu ao professor uma boa oportunidade de dialogar com o aluno. Mas ele a desperdiçou, traindo o ideal socrático. Em lugar da maiêutica, que levaria mestre e aluno a refletirem sobre o tipo de liberdade que a filosofia postula, fez-se o aborto. O aluno revoltado ironizou a questão. E o professor indignado lacrou a saída da caverna.


A filosofia é feita de perguntas e respostas incômodas. O argumento do aluno é frágil, sem dúvida, mas dá pé a outras tantas perguntas: O que é a vontade? Qual a liberdade que um computador pode nos oferecer? Dormindo, estou mais livre do que acordado? Se todo game tem regras, objetivos e metas, obedecê-las é perder a liberdade? O que é o “melhor”?


Estas e outras indagações estão embutidas no texto do aluno, à espera de um filósofo. E o professor de filosofia deve ser, antes de tudo, um filósofo! No final do desabafo, o aluno usou três pontos de exclamação!!! Tentava chamar a atenção do professor. Pedia-lhe, em surdina, um ensinamento mais convincente.


Na realidade, o aluno fez uma excelente provocação. Sua resposta merecia leitura melhor. Talvez até mesmo uma nota 9… ou um dez! O aluno perguntou, veladamente, se a filosofia é algo sério. Esperava alguém lhe provar que, entre as quatro paredes da sala de aula, vale a pena pensar para transcender as prisões.


Quando o professor anulou aquela resposta, não estava apenas empurrando o aluno para o fundo da caverna e ainda mais longe da filosofia. Estava também se reprovando como professor. Não conseguiu, naquele momento, abrir portas e janelas. Tomou a decisão de ser, para seu aluno, um mero carcereiro.


*Gabriel Perissé é doutor em Filosofia da Educação (USP) e pesquisador do Núcleo Pensamento e Criatividade (NPC) – www.perisse.com.br

Comentários

comentários

PASSWORD RESET

LOG IN