Aprender a ver

A poesia de Cassiano Ricardo nos ensina a enxergar a importância e o alcance da visão humana

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Cena de Um cão andaluz, de Luis Buñel e Salvador Dali: marco do surrealismo

Afirmava o poeta Charles Baudelaire que poderia passar vários dias sem comer, mas não conseguiria viver 24 horas sem poesia. Nem todo mundo ousaria referendar essa afirmação. Afirmação metafórica, cuja verdade não literal é que a poesia alimenta nossa sensibilidade, fortalece nossa relação com a linguagem, aumenta nossa capacidade de compreender a condição humana.

Por amor à nossa saúde interior, deveríamos reservar alguns minutos do dia para ler os poetas. Saborear rimas, aliterações e outras brincadeiras sonoras. Mentar novas imagens. Embarcar em ritmos que nos façam caminhar de modo mais criativo na prosa cotidiana.

Poesia que seja uma fuga… para a realidade, para o mundo, fuga que nos torne mais atentos ao que nos rodeia. A poesia de Cassiano Ricardo (1895-1974) nos ensina a empreender essa fuga realista. Abre-nos caminhos verbais para ver melhor, para pensar e agir com maior radicalidade.

Saber pensar poeticamente consiste em descobrir, mediante o jogo da palavra, novos aspectos e matizes do jogo da vida. O pensamento poético é uma espécie de vidência. Os poetas, por não fazerem o jejum da palavra, por serem devoradores e criadores do verbo, podem ver e ajudar a ver. Não sem razão, muito já se comentou sobre a semelhança entre a atividade dos poetas e a dos profetas.


Nascemos para ver


Cassiano Ricardo nos ensina a ver. A ver o quê?
Em primeiro lugar, ver a importância e o alcance da visão humana. Podemos ver mais do que imaginamos. O nosso olhar pode penetrar regiões impensáveis.
No poema "Mulher recém-morta num desastre" (do livro
Montanha-russa

, de 1960), o atropelamento banal de uma mulher é muito mais do que um lamentável episódio urbano:


Ei-la, agora, em decúbito
dorsal, o antigo olhar
apagado, tão de súbito
que continua a olhar.

O olhar morto continua vivo, mas vendo outras coisas. O mundo de cá, as flores, as coisas pequenas que ela via, tudo isso que a rodeava também deixou de existir subitamente, porque…


Só existiu quem foi visto
por seus olhos vigentes.
Não quem chegou antes,
nem quem chegar depois.


O mundo daquela mulher deixou de existir no momento em que ela deixou de contemplá-lo, mas parece que passou a admirar outras paisagens. O poeta assiste à cena de modo ativo e criativo. A mulher recém-morta só continua viva porque ele recolhe aquela mulher em seus versos. No final, um operário se aproxima do corpo inerte, e com a mão suja de graxa fecha-lhe as pálpebras. O motivo desse gesto é revelado pelo poeta. O operário tem medo de ser visto:


Com medo de ser visto
por seus olhos, tão distantes
que pareciam estar vendo
algo jamais visto antes.

O olhar, mesmo perdido, denuncia que algo está sendo visto para além do visível. Nunca paramos de ver. Nascemos para ver. Morremos para ver.


Visão do mundo e de mundo

A visão faz a realidade ganhar qualidade, consistência e valor. A visão humana é sempre interpretativa. O olhar humano faz o mundo tornar-se humano.

Em outro poema, "ETC." (em
Um dia depois do outro

, de 1947), Cassiano já se referia à visão:


Sem os nossos olhos, sem o que somos,
que adiantaria haver mundo?
Seria a árvore dos dourados pomos, etc.

O poeta alude aos versos de outro poema, conhecido nas antologias escolares do seu tempo, "Esperança", no qual o autor, Vicente de Carvalho (1866-1924), ensina que a felicidade desejada, "Árvore milagrosa que sonhamos / Toda arreada de dourados pomos, // Existe, sim; mas nós não a alcançamos / Porque está sempre apenas onde a pomos / E nunca a pomos onde nós estamos". O mundo seria essa árvore que a todos se entrega, com seus frutos, frutos que nós próprios tornamos inalcançáveis. Embora seja este mundo o único lugar da felicidade possível, ele seria inútil sem a nossa visão.

Ver ativamente é criar uma visão
do mundo

e uma visão
de mundo

. Nesse mesmo poema "ETC.", uma outra morte se dá. Trata-se agora de um suicídio:


Agora mesmo, não faz senão um minuto,
no banco do jardim… que foi? Um homem suicidou-se.

Mas não foi apenas um suicídio. Ele nos suprimiu, ao fechar seus olhos para o mundo:


Ele nos destruiu também, simbolicamente.
Que destruir a si mesmo importou, para ele,
em destruir o mundo físico,
que só existia em razão dos seus frágeis sentidos
principalmente em razão dos seus olhos, etc.

Nossos sentidos não são meros sensores. Há neles mil possibilidades. Vendo, ultrapasso as simples informações sensoriais, dou ao que vejo existência significativa, finalidade, sentido. Não basta existir, é preciso existir para alguém, existir aos olhos de alguém.

Por isso, o suicida não se mata apenas. Ele nos mata! Ele inviabiliza nossa existência, ao dizer (sem falar) que nós não temos tanta importância assim. Que ele não nos quer ver mais. Que não somos tão relevantes assim. Se não houvesse relação viva entre os homens, um morto seria apenas uma coisa morta e muda. Tal morte não diria nada a ninguém. O fato de não termos mais, sobre nós, os olhos do suicida faz com que percamos valor e existência.


Olhar de mútua aprovação


O olhar como um
fiat

de aprovação. Um "faça-se". Um olhar acolhedor e criador. Se um homem se mata, comunica determinada avaliação do mundo, desaprova tudo o que o rodeia, nega, enfim, a possibilidade de dar sentido a esse mundo.

No campo do ensino, o olhar se antecipa ao falar. O olhar do professor dá existência ao aluno, pondo esse aluno onde nós estamos, diante de nós, ao nosso lado, e não em pesquisas e tratados distantes da realidade. O modo como o professor encara seu aluno, o que dele pensa, é fundamental. É o professor, com sua maneira de conceber a educação, o conhecimento, o livro didático, a sala de aula, é o professor quem confere ao aluno a chance de crescimento, de existência efetiva. Olhando o aluno, não como coisa inerte ou incômoda, mas como um ser destinado a aprender, o professor abre-lhe efetivamente caminhos de aprendizado.

A recíproca é verdadeira. A legitimidade do professor não procede tanto dos diplomas que conquistou, ou do tempo de vida profissional acumulado, mas do olhar que recebe de seus alunos. Olhando o professor com respeito (respectare, em latim, significa "olhar muitas vezes e com atenção", "levar em consideração"), o aluno reafirma-lhe a condição de educador.

Sem esse olhar de mútua aprovação, é impossível ensinar, é impossível aprender.


Gabriel Perissé


é doutor em filosofia da educação (USP) e professor do Programa de mestrado/doutorado da Universidade Nove de Julho (SP);



www.perisse.com.br

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