Amor e pieguismo

Dilemas de um tempo em que se quer pessoas educadas sem que ninguém as eduque

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Fiquei perturbado, após ter conversado com um jovem professor, a personificação da amargura. Confidenciou-me o que estava a pensar:
Estou a pensar mudar de profissão. Na escola, os outros professores nem me querem ouvir. E, na última aula, eu saí desesperado. Deram-me uma turma com mais de 30 alunos. Nem mesas há para todos, naquela sala!

Perguntei:
Quantos alunos tem a tua escola

?

Cerca de 600

– respondeu.
E quantos professores?

Mais de 70

.
Fiz a divisão: havia menos de dez alunos por cada professor.
Então, por que razão há turmas com mais de 30 alunos?

Você sabe por quê! E nem contei com os estagiários que por lá andam. A escola aproveitou o despacho que prevê percursos escolares alternativos e, com isso, conseguiu que mais professores lá fossem colocados. Mas tudo continua igual. Os professores não conseguem dar aulas aos alunos dessas turmas. Os meus colegas dizem que os alunos podem estar a pensar em tudo menos no que o professor está a dizer, mas o que importa é que não os chateiem e os deixem dar a aula. Se não deixarem, há sempre a falta disciplinar. Rua com eles!


E os outros professores da tua escola?

Os outros? Quais? Na sala dos professores, só os vejo a dizer mal dos alunos e a preparar processos disciplinares

.
Instaurar um processo disciplinar, suspender ou expulsar um aluno é fácil e é a regra. Mas, quando punem um aluno, os professores agem sobre as consequências, não sobre as causas. A solução administrativa dos problemas disciplinares é deseducativa, porque não resolve o problema e porque impede a aprendizagem. Não é entendida por mentes revoltadas, nem previne situações de conflito futuras.

Muitos professores vacilam entre uma permissividade humilhante e um autoritarismo medroso. Parecem estar receosos de exercer autoridade. Poucos a exercem com maturidade, serenidade, bondade. Se a alfabetização linguística ou matemática é aquilo que a gente sabe, da alfabetização emocional nem é bom falar. O pieguismo pedagógico usurpou o espaço onde deveria haver amor maduro. Não espanta, por isso, assistir a diálogos deste jaez:

Professor, você não consegue entender os meus problemas, as minhas emoções

!

Pois não, Guidinha. Nem as minhas eu entendo

!
Também não surpreendem lamúrias do tipo:
Dominar a sala de uma classe de seis anos é difícil. É muito difícil mantê-los sentados! Quanto mais dar aula

!

Raul Brandão disse-nos que o importante é a comunicação de alma para alma, que a mãe que aperta a nossa mão e o sorriso com que nos acolhe nos desvendam o mundo. E sabemos que o problema tem raízes profundas, no ventre e no leite materno. Eu conheci pais imaturos, escravos e reféns dos seus filhos. Como uma mãezinha que se queixava de não ser capaz de "agüentar o filho":
Não sei o que hei-de fazer, senhor professor. Tem de me indicar um bom psicólogo. Já fui a dois, mas não gostei. Eu sei que ele só tem seis aninhos e que eu não o posso contrariar. Se eu o contrario, ele começa a chorar, a gritar. E eu já não sei o que fazer.

Compreendido: a criancinha gritou, ganhou. Mas o que me interessava era saber por que razão ela não sabia estar na mesa com as outras crianças, almoçando como as outras crianças. E a mãe da criança esclareceu:
O meu filho não usa o garfo e come com a mão porque no jardim infantil não o ensinaram a comer

.


José Pacheco

, educador e escritor, ex-diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves, Portugal

josepacheco@editorasegmento.com.br

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