Ainda inadequado

Qualidade dos livros desenvolvidos para o público da educação de jovens e adultos tem muito o que avançar, mesmo que tenha diminuído a ocorrência do uso de material didático voltado para outra faixa etária

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Gustavo Morita
Cristina Pires, professora de EJA há 15 anos: “o livro não funciona por si só”

Em uma folha mimeografada a álcool, grafia à mão, lê-se: “Benedito vive. Jovelina vive. Benedito lida o dia todo. Jovelina ajuda Benedito na labuta”. Assim, pouco antes do golpe militar de 1964, os alunos eram apresentados aos personagens principais do Conjunto Didático Benedito e Jovelina, produzido pelo Movimento de Educação de Base em Goiás (MEB-GO) e direcionado à alfabetização de jovens e adultos que viviam na zona rural daquela região. Em virtude das circunstâncias políticas que tomaram o país, o trabalho foi interrompido, mas ficou como um registro de material didático idealizado especificamente para esse público, pensado na realidade do aluno. Hoje, cinco décadas depois, especialistas da área da Educação de Jovens e Adultos (EJA) apontam justamente a questão do conjunto didático que “converse” de fato com seu público como um dos grandes desafios desta modalidade de ensino, que só no ano passado somava 3,1 milhões de estudantes no país, segundo dados do último Censo Escolar.

Não é só contexto
Roberto Catelli, coordenador do programa de Educação de Jovens e Adultos da Ação Educativa, organização não governamental que trabalha na pesquisa e promoção da educação, é um dos que se preocupam com o tema. “O material didático é uma das portas para garantir o direito à educação. E faz parte do direito à educação para essas pessoas ter um material adequado”, afirma.

Ele conta que hoje não é tão frequente encontrar quem trabalhe com alunos adultos usando material de crianças e adolescentes – até por conta da inclusão da EJA no Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), a partir da resolução nº 51/2009, do Ministério da Educação –, mas que a qualidade dos livros desenvolvidos para o público da EJA tem muito o que avançar.

“Ainda existe pouca gente que faz material efetivamente pensado para adultos. Ocorre muito a adaptação de materiais da escola regular, mas não basta trocar a imagem ou um texto. Há que se pensar no material com uma proposta pedagógica que leve em conta aquele sujeito”, avalia Catelli, que também foi um dos responsáveis pela produção de um material direcionado especificamente para esse segmento, a coleção Viver, Aprender, editada pela ONG.

“O público da EJA aprende de outra forma, logo, deve-se ensinar de outra forma, não é só uma questão de contextualização”, defende. “A primeira coisa que você deve ter em mente é que está fazendo um trabalho com pessoas que não estão mais na mesma fase escolar que crianças e adolescentes, que já têm experiências pessoais
e profissionais. Isso tem de ser considerado na hora em que se vai produzir o material”, diz.

Essa opinião é compartilhada por Osmar Fávero, professor do programa de pós-graduação em Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF), do Rio de Janeiro. “O importante é partir dos interesses e da necessidade dos alunos, e essa é a dificuldade. Não se costuma trabalhar a partir disso, mas de um currículo, que é basicamente escolar”, afirma.

Interessado na matéria desde a década de 1960 – chegou a produzir à época o conjunto didático Viver é lutar –, Osmar Fávero começou a atuar oficialmente como pesquisador de material didático para jovens e adultos a partir do final de 1990, com ênfase de educação popular. Nessa linha, diz que, a partir do ano 2000, “muita coisa boa” foi feita no país (cita iniciativas do MEC, de algumas prefeituras e entidades ligadas a movimentos sociais), mas é crítico em relação ao que é produzido pelo mercado editorial.

“As editoras não têm nenhuma prática de trabalhar com jovens e adultos pensada na educação popular. Isso para mim é terrível”, avalia. De forma bem-humorada, o pesquisador propõe algo drástico: “Há pouco tempo fui ao interior do Espírito Santo entrevistar uma velha professora, na faixa dos 90 anos, que sempre trabalhou com jovens e adultos. Ao final da conversa, ela perguntou ‘você não quer umas caixas de livros do Mobral? Nunca usei, vou jogar fora’. Pois esse é meu conselho: se o material não dialoga com a realidade da sua turma, jogue fora. Dê de presente. Mais importante é ter a capacidade de ouvir os alunos”, sustenta.

Ainda assim, o pesquisador destaca a importância dos livros. “O material didático é essencial para fixar a aprendizagem com jovens e adultos”, diz. “Você pode trabalhar com o grupo a partir de debate, por exemplo, como Paulo Freire propunha, mas precisa criar a prática da leitura e a prática da escrita. E o material didático nesse ponto é fundamental”, afirma Fávero.

Flexibilidade
Especialista em recursos educacionais abertos, Bianca Santana diz acreditar que um dos grandes problemas dos livros didáticos produzidos hoje para a EJA reside na impossibilidade de alterações, até por conta de licenças de direito autoral, o que prejudicaria a adaptação do material ao cotidiano dos alunos. “É claro que existem professores e realidades escolares que tratam o conjunto didático como material complementar, como recurso que agrega, mas em muitos lugares o livro acaba sendo ‘o’ programa da aula. Isso é muito ruim”, avalia. “Mesmo os melhores materiais da EJA não dão conta da diversidade de idades, da diversidade regional e da diversidade das escolas. Daí a importância de abrir as possibilidades de uso dos recursos didáticos”, defende Bianca, que, além de pesquisadora, também atua em sala de aula, na educação de adultos, desde a adolescência – a primeira “aluna” foi uma de suas avós. “Isso já me trouxe várias situações de conflito, porque muitas vezes o discurso na academia é lindo, mas na prática não tem resultado objetivo”, diz. “O que posso falar, pela minha experiência, é que as pessoas aprendem de formas diferentes. Tem gente que vai aprender copiando as letras. Outros ouvindo cordel. Assim, o livro didático deve convidar à adaptação e não se apresentar como um roteiro pronto, um produto acabado que deve ser utilizado dessa ou daquela forma”, sustenta a pesquisadora.

Mauro José da Silva, diretor de políticas de alfabetização e educação de jovens e adultos do MEC, diz que a possibilidade de adaptação é um dos pontos principais da coleção Cadernos de EJA, material elaborado pelo governo federal em 2006 para ensino fundamental de jovens e adultos, a partir de orientações do Conselho Nacional de Educação (CNE).

“A palavra-chave dessa coleção é flexibilidade. Ela dá liberdade ao professor para decidir o que quer ou não utilizar, em que ordem, com que finalidade”, diz. “Isso permite que o educador, ao elaborar seu planejamento, possa inserir textos e atividades livremente, enriquecendo o dia a dia na sala de aula e a organização do processo ensino-aprendizagem”, explica Silva. “Como o público da EJA é bastante diversificado, trabalhamos com a ideia do diálogo como elemento fundamental da relação entre professor e aluno. Esses cadernos, e consequentemente seus temas, só adquirem sentido no contexto dessa relação dialógica que se estabelece entre sujeitos dotados de consciência e capacidade de posicionar-se criticamente frente ao discurso do outro”, afirma o representante do MEC, que não se manifestou sobre a possibilidade de ampliação desse material para o ensino médio. Além de já ter sido distribuído em todo o país, a coleção Cadernos de EJA também está disponível na internet.

Plano nacional
Entre os Fóruns EJA, espaços de mobilização sobre o movimento de educação de jovens e adultos no Brasil, a discussão sobre a qualidade do material didático também aparece. “Só nos Fóruns, esse debate remonta a mais de uma década. É um dos mais intensos e talvez um dos mais antigos”, afirma Edmilson Feliciano Leite, que integra o Fórum Paranaense de EJA, como representante do Sindicato dos Trabalhadores da Educação do Paraná.

Leite aponta ainda o caminho que poderia ser desenvolvido pelos municípios que ofertam EJA: a produção do próprio material, com utilização e valorização das experiências e da mão de obra local. “Há recursos disponíveis, inclusive verba do governo federal. Mas muitos gestores não vão atrás. E quando vão, a maioria prefere seguir direto para as grandes editoras, comprar um material ‘empacotado’. Assim, ao invés de o livro se adaptar ao sujeito, temos o sujeito tendo de se adaptar ao livro”, argumenta.

Nos Fóruns, a questão da qualidade do material didático também é vista e debatida como um ponto dentro de um problema maior.

“Não temos uma política nacional para a educação de jovens e adultos”, diz Maria Alice de Paula Santos, que integra o Fórum EJA São Paulo. “A questão do material passa por isso, mas também a organização e espaço das escolas, os horários de aula, o currículo específico, acesso a bibliotecas, salas de informática, enfim, toda a estrutura escolar. Ainda falta muito. O material é uma parte pequena de algo maior e estamos muito longe do ideal”, avalia.

Maria Alice destaca que não adianta investir em campanhas publicitárias pregando a volta aos estudos se não há estrutura para receber esses alunos. “A escola hoje tem o seu formato e não quer mudar. O aluno da EJA que não se enquadra simplesmente não vai. Aí vem o discurso ‘o aluno não procura, não tem demanda’. Mentira: temos demanda. Agora, do jeito que a escola se organiza, ela não atende à necessidade desse aluno, nem à sua realidade”.

Metodologia própria

Na cidade de Mangaratiba (RJ), a experiência de uma escola fez com que o município revisse a forma de atuação na EJA. Em 2009, na Escola Municipal Batatal, situada em uma comunidade rural, professores e coordenadores tiveram a ideia de desenvolver a metodologia de ensino a partir das demandas dos alunos. “Começávamos perguntando: ‘por que você quer voltar para a escola?’. As respostas eram variadas: ‘para ler o nome do meu ônibus’, ‘para tirar carteira de motorista’, ‘para ler a Bíblia na igreja’. Com isso, adaptamos as aulas, inclusive o uso do material”, conta Lucilene de Souza, à época diretora da escola, hoje coordenadora de gestão pedagógica na Secretaria Municipal de Educação. Além de incluir em sala textos como bulas de remédio e cartões de pagamento, eles iam com a turma a pontos de ônibus, ao shopping, ao banco. O resultado positivo – a primeira turma, de 30 alunos, terminou com 100% de frequência, fato raro na educação de adultos – rendeu ainda à escola a medalha Paulo Freire, concedida pelo MEC. A proposta curricular do município foi refeita a partir daí, organizada com foco na realidade dos alunos. “O aluno da EJA, em geral, já chega cansado, pois trabalhou o dia todo. A aula tem de ser prática, tem de ter significado para ele. E se o livro não tem isso, professores e coordenadores devem correr atrás”, diz Lucilene.

 

Livro é ferramenta de apoio

O município de São Paulo (SP) mantém, desde 2003, Centros Integrados de Educação de Jovens e Adultos (CIEJAs). Hoje são 14 na cidade. Lúcia Pedro Sarkissian, assistente pedagógica educacional do CIEJA Clóvis Caitano Miquelazzo, localizado no Parque Bristol, explica que ali o trabalho é realizado com livros encaminhados pelo PNLD, nas turmas de alfabetização, e com um material produzido através de uma parceria entre a Prefeitura e a Fundação do Desenvolvimento Administrativo (Fundap), que traz temas ligados ao mercado de trabalho. “De qualquer forma, os livros são utilizados como ferramenta de apoio. Os professores fazem muita adaptação, são muito criativos. Isso enriquece o material”, diz. “Vamos adaptando a aula dependendo da resposta dos alunos”, explica Aparecida Cristina Ferreira da Silva Pires, professora de jovens e adultos há 15 anos, desde 2006 atuando no CIEJA.

Ela destaca que, em relação ao material, o que faz a diferença na EJA é a percepção do professor em relação às turmas. “Cabe ao professor criar meandros para a aula fluir. O livro não funciona por si só”, afirma. “O professor também precisa saber que sua programação deve ser maleável. Cada grupo tem sua particularidade, seu tempo. O educador tem de ter isso em mente o tempo inteiro.”

 

Ir aonde o aluno está

Com a proposta de incentivar a volta à escola de jovens e adultos, em Vitória (ES), a prefeitura está há um ano com o projeto Vitória Alfabetizada, que trabalha com o diferencial de levar o professor às comunidades. O trabalho não acontece em escolas, mas em locais de fácil acesso ao público-alvo: salões de condomínio, associações de moradores, canteiros de obra, entre outros. “Encaminhamos o professor aos locais em que essas pessoas estão inseridas, os próprios educadores acertam com os educandos os melhores horários para as aulas. Procuramos nos adequar às condições determinadas pelos alunos”, diz a secretária municipal de Educação, Adriana Sperandio. Ela explica que o programa funciona como um ‘pré-EJA’. “Percebemos que, entre os jovens e adultos, os sem condições de leitura e escrita tinham receio inclusive de se matricular nas turmas da EJA, nas escolas. Ficavam constrangidos”, diz. “Nossa intenção é garantir que essas pessoas sejam alfabetizadas e incentivadas a seguirem estudando.”

A educadora Sirlene Silva, que termina neste semestre sua primeira experiência como professora de uma turma de adultos junto ao projeto, dá aulas no salão de uma igreja batista. “Estar próximo da comunidade facilita muito”, afirma a professora, ela mesma com experiência como aluna na educação de adultos: concluiu o ensino médio aos 33 e agora, aos 40, está no último ano da faculdade de Pedagogia. “Sei das dificuldades. Minha história me aproxima à deles”, afirma.

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