Acertando contas

É preciso retomar os ideais republicanos na educação pública, sobretudo na formação de professores

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Um fantasma ronda o trabalho universitário na esfera pública: a amarga constatação de que, como funcionários estatais, os professores vêm se convertendo em serviçais do mercado ou, mais precisamente, em provedores de mão-de-obra qualificada para o universo empresarial/corporativo, quando era de se esperar que, por força de suas escolhas e atribuições, eles tomassem para si o papel de guardiões do bem comum.

Para aqueles que ainda não liquidaram suas almas na bacia da apatia, resta um sentimento de desilusão, quando não de mãos atadas, ante a implacável apropriação privatizante dos serviços e recursos públicos – uma espécie de pilhagem branda, indireta, ulterior e, por isso, mais insidiosa. Uma espoliação na surdina e fora de controle.

No caso da formação de professores, a prova cabal de tal estado de coisas reside no fato de que a rede privada de ensino converteu-se na destinação quase exclusiva dos egressos das universidades públicas, ao passo que a imensa maioria daqueles que se encaminham à rede pública é oriunda das faculdades privadas, cuja lógica mercantilista das práticas de formação, salvo raríssimas exceções, é alheia aos interesses do bem comum.

Ora direis: tudo se explicaria pela oferta de melhores condições de trabalho na esfera particular. E eu vos direi, no entanto: a superação do disparate privatista na educação contemporânea exigiria não apenas uma remuneração mais condizente (alguns diriam, competitiva) dos profissionais do setor público, mas também uma retomada aguerrida dos ideais republicanos que parecem se dissipar pouco a pouco do horizonte educacional – também e principalmente da formação docente.

Mesmo tendo em mente que a formação inicial jamais será suficiente nem unificadora das infindáveis contingências da profissão, compete à universidade uma atitude mais corajosa em relação ao que se pensa e ao que se faz na educação pública atualmente. No perímetro acadêmico, por exemplo, uma mirada analítica sobre os dilemas concretos do cotidiano escolar é muitas vezes preterida em favor de um abstracionismo teórico refratário aos ditames da vida nua e crua nas escolas.

Mas já que o jogo da formação inicial parece perdido, uma possível contrapartida da universidade pública para a escola básica poderia se dar pela via de projetos de longa duração e regularidade (fossem de formação continuada, fossem de acompanhamento dos projetos político-pedagógicos em curso) ou, de maneira mais incisiva, pela via da prestação de serviços pedagógicos obrigatórios pelos formandos junto ao ensino público, por determinado período de tempo após a conclusão do curso e em quaisquer áreas do conhecimento.

Eis aqui uma resposta tão possível quanto improvável ao descompasso ético-político entre uma escola básica que beira a indigência e uma universidade que se clama democrática, gratuita e de qualaidade, mas que se esquece de se comprometer mais vigorosamente com seu entorno próximo.

 



Julio Groppa Aquino – Professor da Faculdade de Educação da USP –



juliogroppa@editorasegmento.com.br

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