ABC do sonho brasileiro

  Cenas de Um sonho intenso, dedicado ao economista Celso Furtado   O interesse pelos documentários realizados no formato conservador das “cabeças falantes” – …

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Divulgação
Cenas de Um sonho intenso, dedicado ao economista Celso Furtado

 

O interesse pelos documentários realizados no formato conservador das “cabeças falantes” – que se concentram basicamente em perfilar depoimentos, um atrás do outro – depende muito de quem são as cabeças e do que elas têm a nos falar. Um sonho intenso (Brasil, 2014, 101 min) segue essa linha. O objetivo, resumido por um entrevistado, é o de “mergulhar no passado para entender o presente”. Pois bem: se o espectador está interessado em compreender melhor o Brasil de hoje, da crise política aos engarrafamentos nas grandes cidades, recomenda-se ouvir o que nos dizem as cabeças falantes selecionadas pelo diretor José Mariani.

Os depoimentos do filme trazem informações e análises preciosas que ajudam a combater, entre outros aspectos, um dos males do debate público de qualquer época, mas sobretudo da nossa, o “viés de confirmação” – ter uma tese e buscar na realidade apenas os indícios que a confirmam, desprezando tudo o que a contraria. Dedicado ao economista Celso Furtado (1920-2004), o filme pede a seus convidados que analisem um século de história do Brasil com ênfase nos processos econômicos e políticos, tendo em vista a busca de um país “desenvolvido, democrático e multirracial”, como afirma Maria da Conceição Tavares.

Ricardo Bielschowsky (que aparece nos créditos como consultor), Carlos Lessa, Adalberto Cardoso, Francisco de Oliveira, Luiz Gonzaga Belluzzo, Celso Amorim e Lena Lavinas são alguns dos “guias” que, em uma espécie de longa conferência com múltiplos palestrantes, diagnosticam as características do processo de desenvolvimento brasileiro ao longo do século 20, de Vargas a Lula. Imagens de arquivo – como as extraídas dos documentários Maioria absoluta (1964) e ABC da greve (1990), ambos de Leon Hirszman  – complementam essa aula magna que, em condições ideais, deveria ser adotada como “bibliografia básica” até mesmo para qualquer conversa de botequim ou de churrasco sobre o atual estado do país.

Documentários
Os documentários – ou Um outro cinema, como diz o título do livro de Guy Gauthier (Papirus, 432 pags., R$ 81) – têm diversos formatos, ou tipos, como prefere denominá-los Bill Nichols em seu livro Introdução ao documentário (Papirus, 270 pags., R$ 66,50). De acordo com a sua proposta, Um sonho intenso pertenceria ao “modo expositivo”.

Filmografia
Não causa surpresa que Um sonho intenso seja dedicado a Celso Furtado. O diretor José Mariani realizou também O longo amanhecer (2004), cinebiografia do economista. Mariani assinou ainda os curtas Viva a Penha (1977), Estórias da Rocinha (1985) e Salvar o Brasil (1987), além do média-metragem Cientistas brasileiros: César Lattes e José Leite Lopes (2002).

Hirszman
O diretor carioca Leon Hirszman (1937-1987) foi um dos principais nomes revelados pelo Cinema Novo, na década de 1960. A falecida (1965), São Bernardo (1972) e Eles não usam black-tie (1981) estão entre seus principais filmes. ABC da greve foi rodado em 1979, registrando o movimento operário no ABC paulista, mas só foi concluído em 1990.



FILMOTECA

Releituras da história

Documentários para compreender melhor a história do país e alguns dos fenômenos que impactam ainda hoje a nossa sociedade, embora sejam desconhecidos, em seus detalhes, por boa parte da população.

Braços cruzados, máquinas paradas (1979)
Cerca de 300 mil associados participam da eleição de 1978 para a direção do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, disputada por três chapas. Dirigido por Roberto Gervitz e Sergio Toledo, o filme expõe a estrutura sindical brasileira e acompanha eventos-chave no processo de redemocratização do país e na formação de movimentos sociais.

Os anos JK – Uma trajetória política (1980)
O diretor Silvio Tendler reconstitui a carreira do médico mineiro Juscelino Kubitschek de Oliveira (1902-1976), que foi prefeito de Belo Horizonte, deputado constituinte, governador de Minas Gerais, presidente do Brasil e senador por Goiás. O documentário cobre a renúncia de Janio Quadros, o golpe de 1964 e a cassação dos direitos políticos de Juscelino.

Jango (1984)
Em sequência a Os anos JK e já no final do período de “abertura”, o diretor Silvio Tendler reconstitui a trajetória do gaúcho João Belchior Marques Goulart (1919-1976), que foi deputado estadual e federal, ministro do Trabalho de Vargas, vice-presidente de Juscelino e de Janio Quadros, e presidente de 1961 a 1964, cujos mecanismos e motivações o filme expõe.

Cabra marcado para morrer (1984)
Forçado pelo golpe de 1964 a interromper as filmagens de um longa de ficção sobre latifundiários e a disputa por terras no interior da Paraíba, o diretor Eduardo Coutinho retomou o projeto no período de redemocratização do país e o transformou em um documentário sobre o destino da família de um líder camponês que participava do filme interrompido.

Entreatos (2004) & Peões (2004)
Durante a campanha pelo segundo turno da eleição presidencial de 2004, em que Lula enfrentou José Serra, o diretor João Moreira Salles acompanhou os bastidores da campanha do primeiro, condensados em Entreatos, enquanto Eduardo Coutinho, em Peões, localizou alguns dos antigos companheiros de Lula no sindicalismo, e que não fizeram carreira política.

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