A voz do professor

Fenômeno na internet, vídeo de Amanda Gurgel retoma questões conhecidas na educação brasileira

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As audiências públicas em qualquer Assembleia Legislativa do país dificilmente conseguem ter sucesso de público. Entretanto, no dia 10 de maio, o improvável aconteceu: a professora Amanda Gurgel fez um discurso em uma sessão sobre a situação da educação no Rio Grande do Norte, e chamou a atenção de milhões de pessoas. O vídeo do discurso, colocado no site YouTube quatro dias depois, alastrou-se rapidamente pelas redes sociais virtuais. Foi assistido mais de 1,7 milhão de vezes em menos de vinte dias e repercutiu em meios que normalmente não discutem as particularidades da educação brasileira.

Para quem acompanha o cotidiano da área, nenhuma das dificuldades que ela comenta chega a ser uma novidade: seu salário-base é de R$ 930, ela dá aula em duas escolas para poder manter um nível mínimo de vida decente e não há estrutura adequada nas instituições ou tempo suficiente para o preparo das aulas. O que fez, então, o vídeo se tornar um fenômeno? O professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Luiz Carlos Gil acredita que tamanho interesse pode ser explicado por um contexto propício. Para ele, hoje a educação está em posição de destaque na mídia, e o sucesso do discurso de Amanda é um reflexo disso. Já na visão de Rubens Camargo, professor da Feusp, o sucesso se deve ao fato de que o discurso aconteceu na Assembleia Legislativa e apesar da crítica direta ao poder público, não houve revide das autoridades políticas presentes no momento (inclusive da secretária de Educação do estado, Betânia Ramalho). “Foi uma espécie de Sansão contra Golias, em que apenas uma docente conseguiu calar o Estado”, completa.

Um perfil
Amanda Gurgel é professora de português da rede municipal, em Natal, e estadual do Rio Grande do Norte há dez anos. O famoso discurso foi motivado por uma greve dos professores do estado, que pediam reajuste salarial de 24% e o pagamento atrasado referente à primeira parcela do Plano de Cargos, Carreiras e Vencimentos (PCCV) – até o fechamento desta edição, a paralisação não havia terminado. Com a fama repentina, o contato com ela se tornou difícil. Tanto que um assessor passou a cuidar da agenda e atender seu telefone. A conversa com Educação precisou ser remarcada duas vezes, por conta de compromissos. Amanda também tem viajado o país – em uma semana, ela passou pelo Rio de Janeiro (RJ), Florianópolis (SC) e Belo Horizonte (MG). O discurso da professora  é marcado pelo uso do sujeito plural e impessoal. De acordo com ela, isso acontece porque seus planos não são individuais, mas representam os objetivos de seu partido, o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados (PSTU),   para a área da educação. Filiada há nove meses, ela afirma sempre ter tido uma relação próxima com a política. Amanda participou do grêmio estudantil nos tempos de escola e já concorreu duas vezes à direção do sindicato do professores do Rio Grande do Norte. Órfã desde os quatro anos, foi criada por um tio que era político “de carreira” em Salvador. Sobre o ingresso na profissão, ela conta que decidiu se tornar professora alguns meses antes de prestar o vestibular, pois cogitava  ingressar no curso de medicina ou no de administração. Com a dúvida, resolveu fazer testes vocacionais – os resultados apontaram para a área de comunicação. “Como tinha admiração por alguns professores, percebi que a docência era o caminho que eu deveria seguir”, conta. Atualmente, com os diversos compromissos, Amanda recebe ajuda de outros professores, que cobrem suas funções nas escolas em que trabalha. Sobre a possibilidade de se licenciar por mais tempo e concorrer a um cargo eletivo, ela desconversa. “Ainda não debatemos essa possibilidade, temos tempo até o ano que vem”, diz.

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