A educação integral para Marcel Mauss

É preciso mudar a concepção de formação

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Mauss: não há fenômeno humano que não seja relacional
A expansão dos programas de educação integral ainda tem ocorrido por vias eminentemente pragmáticas, dando-se pouca atenção às intencionalidades político-pedagógicas que lhe fornecem sustentação. A noção de integralidade quase sempre tem sido subsumida, na teoria e na prática, pela ideia de complementaridade, focalizando-se propostas de ampliação da jornada escolar com um tratamento restritivo do sentido de tempo nas ações mobilizadas, cuja centralidade permanece sendo a escola e os saberes curriculares. Entretanto, só faz sentido pensar em escolas de tempo integral se consideramos uma concepção de educação integral.


Isso significa que o debate sobre a integralidade implica levar em conta a natureza do próprio ato de educar, possibilitando uma concepção mais abrangente e consequente de formação humana. Nesse contexto, valeria a pena retomar algumas das ideias seminais de Marcel Mauss. Considerado um dos pensadores mais influentes do século XX, Mauss articulou uma visão radical do social ancorada nas concepções de homem total e fato social total. Sua ideia central é que o ser humano atua integralmente, ou seja, não há fenômeno humano que não esteja concretamente ancorado em um conjunto relacional de interdependências recíprocas. Cada fenômeno social, portanto, é simultaneamente jurídico, econômico, político, moral, estético. As implicações dessa ideia para a educação são potentes. Os processos formativos, por exemplo, se materializariam mediante a criação de redes sociais que ativam os saberes e as práticas educativas. Educar seria uma forma sensível de doação.


Isso porque, como lembra Mauss, ancoramos no mundo, primeiramente, transformando-o em uma complexa rede de relações e interdependências com e para os demais. Este é o princípio prático-poético para repensar a formação humana nos projetos de educação, pois formar consiste em aprender a construir os vínculos que permitem à sociedade renovar a aliança simbólica em cada geração.


Por não compreendermos essa dimensão, recorda Mauss, as escolas modernas produzem o individualismo mais tenso, pois procuram formar as pessoas partindo de um esforço para uniformizá-las. Dessa ótica, a institucionalização da educação integral como política pública tanto pode produzir aspectos inovadores e transformadores embutidos em uma concepção de educação multidimensional que busca reconectar as relações entre vida e escola, como pode oferecer mais tempo da mesma escola, ou mais educação do mesmo tipo de educação, obstruindo os sentidos de integralidade que articulam as dimensões que ancoram as potencialidades do ser humano.


Mauss alerta que toda proposta de educação integral requer mudar a própria concepção de formação oferecida nos ambientes escolares não só mantendo os estudantes mais tempo nas escolas, mas ressignificando esse tempo a partir de uma concepção ampliada da educação e do ser humano que buscamos formar.

Alexandre Simão de Freitas é pedagogo, mestre em educação e doutor em sociologia pela UFPE.  alexshiva@uol.com.br

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