A educação de Bloomberg

Prefeito, dono de império das comunicações, traz remuneração por mérito ao ensino público da maior cidade americana

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O projeto do prefeito Michael Bloomberg: foco nas escolas de pior performance e estímulo coletivo

A reforma nas escolas públicas de Nova York é radical e, portanto, polêmica. Os defensores do novo programa de gratificações por desempenho em sala de aula seguem a cartilha básica do capitalismo: estimular a competição e a recompensa baseadas no mérito. As correntes contrárias, no entanto, dizem que professores devem atuar pela causa, não pelo preço.

Prefeito de uma das cidades mais famosas e ricas do mundo, Michael Bloomberg imprimiu sua digital de empresário no sistema público de ensino nova-iorquino e inaugurou um plano para educadores de escolas com baixos indicadores de qualidade.

Ganha mais dinheiro a escola que conseguir melhorar o desempenho acadêmico de seus alunos.

Orçado em US$ 20 milhões no primeiro ano, o sistema é totalmente financiado por recursos privados. Preparado para receber, inicialmente, as 200 escolas que mais precisam de ajuda (aproximadamente 15% do total de escolas da cidade), 206 instituições já disseram "sim" ao plano de bônus.

A participação no programa é voluntária e inclui somente escolas qualificadas no critério de "alta necessidade". O diretor dessas instituições tem de concordar em fazer parte do plano e a inclusão nele deve ser aprovada por, ao menos, 55% do corpo docente da escola. Outras 32 instituições votaram "não", contaminadas pela polêmica da meritocracia. A idéia é ampliar o foco do programa para outras 200 escolas no próximo ano letivo, que começa em setembro.


Divisão dos "lucros"

A iniciativa segue a lógica das grandes empresas, que distribuem parte dos seus lucros aos funcionários. "Eu sou um capitalista, a favor de incentivos individuais para as pessoas", diz Bloomberg reiteradamente.

O bônus anual para as escolas merecedoras do dinheiro será equivalente a US$ 3 mil por professor. Um comitê formado em cada instituição que participa do novo sistema decidirá como esses recursos serão distribuídos ao quadro docente. O rateio não precisa ser igual nem para todos os funcionários. O dinheiro extra só será pago se a escola, como um todo, apresentar melhoras nos seus indicadores de desempenho.

O comitê interno é composto por quatro pessoas: o diretor, um funcionário indicado por ele e dois professores ligados ao sindicato. Com a mudança, diretores ganham mais poder para administrar os recursos de sua escola.

A recomenpensa é baseada somente na performance do estudante, mediante aplicação de testes padronizados ao longo do ano, e não leva em consideração a formação acadêmica do educador, como certificados e especializações. A escola que atingir determinado grau de melhora no ensino recebe a verba da prefeitura.

"Não devemos ser julgados por testes. A qualificação de um professor, o tempo em sala de aula e a realidade dos alunos que freqüentam nossas escolas devem ser levados em consideração. Não acho que o mecanismo atual é justo. Ele não me avalia como educadora", diz Michelle Cota, professora desde 1997.

A iniciativa tenta resolver o problema da má qualidade de ensino em escolas localizadas na periferia pobre de Nova York, que não conseguem atrair os bons professores que lecionam em escolas públicas de Manhattan, região mais rica da cidade.


Visão de mercado

A professora Margaret Hughes exibe seu extenso currículo de mais de 20 anos em sala de aula em um dos bairros mais pobres de cidade, o Bronx. Ela não poupa ataques à reforma e ao empresário que administra sua cidade.

"O prefeito Michael Bloomberg vê a escola pública como um negócio. Não somos funcionários do império de comunicação dele, somos funcionários públicos", alfineta, referindo-se a um dos homens mais ricos dos EUA, dono da segunda maior empresa de comunicação do mundo, a Bloomberg.

Tradicionalmente contra por considerar que iniciativas como essa dividem a classe, o sindicato de professores de Nova York (United Federation of Teachers – UFT) acabou concordando com a idéia. A entidade aceitou dar suporte ao programa em troca do apoio do prefeito a uma antiga demanda da categoria: reduzir de 30 para 25 anos o tempo de serviço dos professores.

A UFT, por outro lado, argumenta que o plano de bônus exclui o mérito individual como critério de pagamento extra e considera, apenas, o desempenho da escola, avaliado periodicamente pela Secretaria de Educação de Nova York.

"Ao contrário dos planos de mérito individuais, que colocam professores contra professores, o bônus encoraja educadores a trabalharem juntos para o progresso de suas escolas, num sistema de ajuda mútua para melhorar a qualidade do nosso ensino e o desempenho dos nossos alunos", defende a entidade.

Mas o receio de divisões políticas parece ter se confirmado, e, apesar da adesão inicial, há um grupo expressivo de professores que constantemente levantam a voz contra o programa.

Entre os professores jovens, a proposta é mais bem recebida, enquanto educadores com mais tempo de carreira resistem sobretudo ao critério para concessão do prêmio.

 "Professores de Nova York, não vamos defender o status quo cegamente. Vamos começar a desenvolver o plano de pagamento por performance que faça sentido para os educadores e estudantes", escreveu a professora Ariel Sacks, há três anos na atividade, em artigo publicado no jornal local Daily News.

Já os críticos argumentam que uma das conseqüências ruins é a própria formação do aluno, já que educadores vão começar a preparar seus estudantes para os testes, não para futuros desafios, como o ingresso na faculdade.

"Precisamos de pessoas que olhem as nossas crianças como crianças, não como números ou banco de dados. Eu não vejo isso indo a lugar algum", rebate Margaret Hughes.

Apesar de funcionar desde outubro, a Secretaria de Educação ainda não revela dados sobre o desempenho do programa. A UFT teme que resultados dos testes sejam divulgados e usados contra os professores com baixas performances. 

Lançado com pompa e alarde, o programa de bônus é visto como um dos maiores testes à administração de Bloomberg. O prefeito, que chegou a ser cotado como candidato à Casa Branca e recentemente se desligou do Partido Republicano, trata o tema com zelo e faz uma defesa aguerrida do que considera uma revolução do sistema de ensino em Nova York.

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