A burca

Na minha sala de aula, ao lado da fotografia do ditador, havia um crucifixo

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Quem te avisa teu amigo é: "Será conveniente que contornes alguns temas, para não teres amargos de boca. Há assuntos interditos. Por exemplo, a religião…".

Não poderia ficar indiferente, contornar o assunto, se o pai do Nuno explicou a razão da transferência do filho para a minha escola: "Tirei o meu filho daquela escola porque ele sofria muita humilhação só por ser uma "criança adventista".

Algo me feriu o ouvido: o que seria uma "criança adventista"? Acaso haverá "crianças católicas", "crianças islamitas", "crianças socialistas"? Ou apenas haverá "crianças"?
Comentei o caso com professores. Todos se denominavam "católicos não-praticantes", todos haviam baptizado os filhos e feito a festa da comunhão solene. Todos inscreveram os filhos na disciplina de Religião e Moral Católica, nas escolas públicas que frequentavam. Quis saber o porquê da incoerência de católicos que "não praticavam". Todos sorriram e só um se pronunciou:

"Quero que o meu filho seja uma criança ‘católica’. E,  se a catequese católica não lhe fizer bem, também não faz mal!."
Faz mal, muito mal, que eu sei por experiência própria. Fui aluno de uma catequista fanática. Fui aluno numa escola do Portugal de Salazar com o catolicismo mais conservador por religião de Estado, apoiando a Ditadura e as perseguições aos dissidentes. Na minha sala de aula, ao lado da fotografia do ditador, havia um crucifixo. O meu colega de mesa era "protestante", mas fingia ser católico. Descoberto, foi rudemente segregado pelos fundamentalistas da época.

"Fazer parte ou não do corpo de Cristo não é uma questão de rótulo, mas de comportamento", como escreveu Jean-Yves Leloup. Se assim não for, para além do poder castrador psicológico e sexual, a sociedade exercerá sobre as crianças um pavloviano condicionamento espiritual.

Os mesmos que rotulam crianças de "adventistas", "católicas", ou qualquer outro adjectivo, também são lestos a afirmar a normalidade dos seus infantes: "É uma "criança normal". E evocam passagens da Bíblia para justificar a nazi rotulação. Como aconteceu numa escola, que visitei pouco antes do Natal. Eu reagi à intervenção de uma professora, porque a considerei reflexo de subdesenvolvimento espiritual. 

"Daqui a alguns dias, todo o mundo estará a celebrar o Natal."
"Olhe que não, minha senhora. E, então, os budistas, por exemplo?"
"Os budistas também estão" – insistiu a professora.
"Não estão, não! Eles não são cristãos. Não celebram o nascimento de Cristo."
"Pode lá ser!" – exclamou, visivelmente irritada.
"Mas é – acrescentei – E há também os hindus, os muçulmanos, os…"
"Pode lá ser assim como você diz!" – contestou a professora – "Os muçulmanos, que são aqueles que andam para aí a matar gente, até pode ser. Mas os outros, não!"

Para não estragar o festivo ambiente, optei por não ripostar. Argumentar para quê? Há gente assim, crentes católicos ou de outras crenças que crêem que a sua igreja é a única e verdadeira. E que todo o mundo celebra o Natal. Eu até conheci uma professora que estava crente de que o Natal era sempre celebrado ao Domingo…

Nada me move contra qualquer credo. Trabalho com educadores católicos, protestantes, messiânicos, budistas, espíritas… Mas observo, com preocupação, que a abertura estreita da burca mental de certos crentes apenas os deixa ver o que é permitido num horizonte encurtado pelo fanatismo.


José Pacheco

Educador e escritor, ex-diretor da Escola da Ponte, em Vila das Aves (Portugal)
josepacheco@editorasegmento.com.br

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