Em debate, o futuro do ensino superior

Especialistas, educadores e gestores falam sobre as mudanças que precisam ser feitas para modernizar o setor e destacam iniciativas inovadoras que podem servir de inspiração para outras instituições

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“Imagine este cenário: após se dedicar muito, você consegue ingressar numa instituição de ensino superior. Está empolgado, motivado e ansioso por todas as oportunidades que estão por vir. (…) O tempo passa e a dura realidade se apresenta: mais professores ruins que bons, um currículo muitas vezes desconexo do ‘mundo real’, aulas desinteressantes, entre outros problemas. Quando você se dá conta, percebe que todo mundo está estudando para passar, não mais para aprender. O que foi que aconteceu com aquela sua motivação? Vou te dizer o que aconteceu: a universidade matou sua motivação.”

É assim que começa um dos textos mais comentados na internet sobre o desapontamento dos jovens com o atual modelo educacional. Ele foi escrito por Adauto Braz Neto, estudante de engenharia do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), e publicado no Facebook. Era para ser um desabafo, mas logo o texto atingiu a marca de 200 mil visualizações, dando mostras de que o descontentamento era geral.

A boa recepção do manifesto também alertou o estudante de que um movimento por mudanças no sistema educacional teria adesão do público e foi daí que nasceu a Inoversidade. A organização é formada por professores e alunos e visa incentivar a adoção de novas metodologias de ensino, entre outras mudanças, para tornar as experiências de aprendizagem mais significativas.

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Essa experiência foi contada no 19º Fórum Nacional do Ensino Superior Particular, o Fnesp, realizado nos dias 28 e 29 de setembro, em São Paulo, pelo Semesp.

Audauto Braz Neto foi um dos palestrantes ao lado de grandes nomes do Brasil e do exterior. Juntos, eles falaram para uma plateia formada por mais de 660 participantes, consolidando a posição do evento como o maior do ensino superior brasileiro.

Repensar o ensino

No papel de inspirar os gestores brasileiros, Caritta Proki, diretora de Negócios da Universidade de Ciências Aplicadas de Tampere (TAMK), na Finlândia, contou como funciona a ProAkatemia, um projeto da Faculdade de Empreendedorismo e Liderança para formar gestores na prática, literalmente.

Quando chegam à instituição, os estudantes – são 20 a cada edição – recebem a missão de criar uma empresa e torná-la sustentável. Eles trabalham em grupo e contam com a ajuda dos professores exclusivamente para aprender conteúdos relacionados à gestão de empresas. As decisões de negócios cabem exclusivamente aos estudantes, que são inteiramente responsáveis pelo sucesso – ou insucesso – das empreitadas. Mas até hoje não houve nenhum caso de falência, afirmou Caritta. Pelo contrário: em 2016, as companhias faturaram juntas 770 mil euros.

Rasmus Antoft trouxe o caso da Universidade de Aalborg, da Dinamarca, internacionalmente reconhecida pelo uso da metodologia Aprendizagem Baseada em Problemas.

Antoft, que é reitor da Faculdade de Ciências Sociais, enfatizou que o método motiva os estudantes porque os problemas usados são reais: os alunos do curso de Turismo estudam como promover a cidade de Amsterdã considerando a forma como isso é feito hoje; as crises vividas nas redes sociais por empresas como Starbucks e Applebee’s são objetos de estudo nas aulas de Comunicação; e os estudantes do curso de Design são enviados a hospitais para desenvolver higienizadores de mãos mais eficazes.

Também não faltaram exemplos brasileiros para inspirar a plateia. Fagner Oliveira de Deus, por exemplo, reitor de Ensino, Pesquisa e Extensão do Centro Universitário de Patos de Minas (Unipam), detalhou as mudanças feitas no modelo acadêmico da instituição, que hoje conta com 10 mil alunos.

Para dar aos estudantes oportunidade de realizar mais ações práticas, foram criados projetos interdisciplinares, como o de fabricação de cerveja realizado no curso de Engenharia Química.

Mas, para acomodar essas iniciativas no currículo, foi preciso diminuir o número de disciplinas. Longe de prejudicar o desempenho dos alunos, a medida elevou a nota dos cursos no Enade. Dos 13 cursos existentes, 12 tiraram nota 4 na mais recente avaliação, contou o pró-reitor.

Em equipe

As soluções para melhorar o ensino – e que também trazem ganhos acadêmicos – podem ser realizadas em conjunto com a formação de consórcios entre as instituições. Nos Estados Unidos, isso é mais comum, como relataram Neal B. Abraham, diretor do Five College Consortium, e Claire Ramsbottom, diretora do Fenway College de Boston e presidente da Association for Colaborative Leadership. Nesses arranjos, os integrantes podem compartilhar despesas e até o corpo docente para possibilitar a realização de projetos mais ambiciosos que, sozinhos, eles não seriam capazes de levar adiante.

O Semesp é uma das instituições brasileiras que apoia esse tipo de iniciativa. Com seu suporte, já foram criadas seis redes, algumas com resultados já avançados, como é o caso do consórcio formado há um ano pela Universidade São Francisco (USF), o Centro Universitário da Fundação de Ensino Octávio Bastos (Unifeob) e a Fundação Hermínio Ometto (Uniararas). Representando esta última, Franciso E. F. Sanches, diretor administrativo-financeiro, contou que as instituições já trocaram uma série de informações, inclusive sobre planos de carreira, financiamento estudantil e modelos curriculares. “Todos perceberam que haveria crescimento individual e coletivo”, frisou.

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Como fazer as reformas

É unânime que o sistema educacional precisa de uma reforma e muitas instituições estão encontrando meios de fazê-la. Mas, para viabilizá-las em uma escala maior, algumas mudanças estruturais precisam ser feitas, como no sistema regulatório, acredita Sérgio Fiuza, vice-reitor do Centro Universitário do Pará (Cesupa).

Mudanças nesse nível são importantes, inclusive, para proteger o sistema, que se encontra “sob ameaça”, em suas palavras, dada a falta de diversidade. Justamente porque há um excesso de normas regulatórias e porque a avaliação não respeita as diversidades regionais, as instituições estão se tornando muito parecidas entre si, alerta. Há também uma concentração excessiva das matrículas em determinadas carreiras e no bacharelismo.

Mas algumas das mudanças que precisam ser feitas para desburocratizar o sistema e facilitar a inovação estão a caminho. Henrique Sartori secretário de Regulação e Supervisão da Educação Superior (Seres), destacou os avanços conquistados com o decreto 9.057, que, entre outros pontos, liberou a abertura de polos de EAD às instituições bem-avaliadas, e ainda listou ganhos que serão gerados com o novo decreto de regulação e supervisão.

Sem entrar em detalhes, Sartori mencionou que haverá instituições que ganharão mais autonomia a partir da utilização de bônus regulatório; processos serão simplificados; as visitas in loco serão obrigatórias em um número menor de casos; haverá a possibilidade de contratar docentes com larga experiência profissional, ainda que não sejam mestres ou doutores, sem que isso prejudique a avaliação da IES; a utilização de auditorias ou certificações será permitida no lugar de algumas demonstrações financeiras, entre outras medidas.

Maria Inês Fini, presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), adiantou algumas novidades, entre elas a decisão de tornar as edições do Enade comparáveis e o fim da nota padrão, que será substituída pela nota absoluta. “Também estamos trabalhando em um modelo de capacitação de novos avaliadores”, contou.

A questão do financiamento do ensino superior emergiu como um tema ainda pouco discutido, mas que precisa entrar definitivamente no debate público, como salientou Hermes Ferreira Figueiredo, presidente do Semesp, ao apontar para a ineficiência da rede pública. Quem também falou sobre o assunto foi o deputado Caio Narcio, presidente da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados, que enfatizou a necessidade de refletir sobre a gratuidade do sistema público, “tema hoje tratado como um dogma”.

De maneira geral, prevaleceu entre o público a percepção de que o ensino superior ainda pode avançar muito. Alguns caminhos já estão dados, como mostraram alguns palestrantes. Mas muitos outros ainda precisarão ser traçados.

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